Detalhes da Carta

Na década de 1970, o bibliófilo e advogado Plínio Doyle, com apoio de vários autores de literatura brasileira, fundou o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. No mesmo período, a escritora Lygia Fagundes Telles também projetava um museu literário, com sede em São Paulo, com o apoio do Centro Federal de Cultura, cujo projeto foi abandonado em 1977. Uma notícia publicada na mídia confundiu as instituições de guarda e ativou em Doyle sentimentos controversos, entre irônicos e solidários.

Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1975

Lygia Fagundes Telles, mui querida amiga,

Os prelos gemeram anteontem com o seu nome, e as notícias da fundação do museu de literatura brasileira, sob a sua direção, aí em São Paulo; boa notícia, ótima notícia, parabéns, parabéns, parabéns; arquivos assim precisavam ser organizados em todas as grandes cidades, para preservar da destruição e da perda, a enorme quantidade de documentos em poder de particulares, cujas famílias, na grande maioria dos casos, não gosta de papel velho, como diz o nosso C.D.A [Carlos Drummond de Andrade]. Você inicia, assim, uma luta que merece todo o apoio dos escritores, das entidades do governo, de todos enfim.

No texto das notícias, você não tem qualquer responsabilidade; na do O Globo, de 15/8, sexta-feira, diz que o seu arquivo, ou melhor, que o museu de literatura brasileira que você está organizando é o primeiro que se funda. Protesto, protesto, protesto. Desde 28 de dezembro de 1972, instalei, na Fundação Casa de Rui Barbosa, o “meu” arquivo museu de literatura, como dá notícia o cartão convite que junto envio. Desde então, estou recolhendo para lá tudo o que recebo em doações, e, em 4 de junho de 1974, inaugurei uma exposição comemorativa da milésima peça (que foi um poema de Machado de Assis, minha doação) segue junto o convite; e, em 1 de março de 1975, inaugurei a segunda exposição a Memória Literária II para comemorar a peça 2000 (um poema de José de Alencar, manuscrito, doação de R. Magalhães Junior, e a 2001, os originais do TIL de José de Alencar, doação da família Lucio de Mendonça; disso tudo dá notícia o catálogo incluso.

Esses quatro documentos (segue também o cartão apelo), penso que você deve incorporar ao arquivo-museu, para que sirva à história dessas organizações no Brasil.

Você, para ter sucesso na organização, deve seguir o meu exemplo, ou seja, pedir, procurar, visitar, solicitar, telefonar a possíveis interessados possuidores de “coisas”, ser enfim, um “pedinte”, um verdadeiro “chato”. Só assim. E, assim, já tenho o “meu” arquivo museu da Casa de Rui, cerca de 3.500 documentos, fotos, originais de livros (todos encadernados) e peças de museu, como tinteiro de prata, chapéu de acadêmicos, medalhas, moedas, notas com efígies de escritores, óculos e outros. E tudo isso tem dado a mim imenso trabalho; ler as cartas para fazer um resumo para a ficha (às vezes peço aos amigos para fazerem esse trabalho para mim). O nosso CDA leu inúmeras cartas do João Ribeiro e outros estão lendo cartas de José Verissimo, Alberto de Oliveira, Taunay e outros; e organizar para a encadernação originais de escritores? Já pensou em que desordem eu recebo esses papéis?

Mas chega de conversa fiada; agora vamos a umas doações para o seu arquivo-museu, em nome de P.D.

1) Foto de 4 acadêmicos – José Américo de Almeida, Afonso Arinos, Peregrino Junior e Candido Mota Filho, feita em minha biblioteca, a 14 de julho de 1974;

2) Ampliação de um cartão postal com autógrafo de Machado de Assis; original na coleção P.D.

3) Ampliação de uma foto de Machado de Assis, feita por H. Bernardeli

4) Ampliação de uma foto de José de Alencar

5) Ampliação de um cartão de visita de Machado de Assis, datado com seu autógrafo; original de coleção P.D.

Vê você assim que nós, oficiais do mesmo ofício, lembramo-nos um dos outros, fazendo doações para ampliação do acervo de outros arquivos-museus (é verdade que do seu lado ainda nada recebi, nem mesmo um retrato, o que espero.)

Agora uma O R D E M……………. que espero que seja respeitada: a ilustríssima e excelentíssima senhora diretora fundadora do arquivo museu de literatura brasileira de São Paulo não pode, sob as penas da lei, sair do Estado de São Paulo pleiteando “coisas”; deixa o Rio de Janeiro, pobre de marré, para o “meu” arquivo-museu; esse acordo, sendo desrespeitado, terei de imediatamente ir a São Paulo para dar pessoalmente o meu grande, forte e apertado abraço de boa amizade.

Com os abraços e saudações muitas,

Plínio Doyle