De 1969 a 1973, enquanto esteve como preso político da ditadura militar, o ainda jovem Frei Betto escreveu uma série de cartas que foram organizadas e publicadas em volume único. Feliz por receber um dos exemplares e por, finalmente, ter notícias sobre a liberdade do frade, o amigo Erico Verissimo atualiza-o das desilusões aos planos: está aqui anunciado o processo da segunda parte de Solo de clarineta, que o autor gaúcho não chegaria a ver publicado.

Porto Alegre, 23 de setembro de 1974

Meu caro Frei Betto:

Foi com grande alegria que recebi suas Cartas (1972), que estou lendo aos poucos com maior prazer e emoção. Havia muito que andava ansioso por notícias suas. Nunca fiquei sabendo se recebeu minha segunda remessa de livros, que dirigi em seu nome ao presídio. Creio que foram dois pacotes, num total […]

No dia seguinte à morte de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, assassinado nos porões do DOI-CODI, os estudantes rapidamente se organizaram para enviar esta carta aos jornalistas brasileiros. O movimento era uma necessária reação às violências e arbitrariedades da ditadura militar que, em 1975, atingia um nível agudo com sequestros, prisões e desaparecimentos. A convocatória parece ter surtido efeito: o Sindicato dos Jornalistas, junto com diversos movimentos estudantis, organizaram um ato ecumênico que reuniu 8.000 pessoas na Catedral da Sé em memória de Herzog.

[26 de outubro de 1976]

Aos jornalistas

Nos últimos dias foram presos em São Paulo e no resto do país dezenas de pessoas. As prisões atingiram indiscriminadamente estudantes, profissionais liberais, professores, sindicalistas, operários e membros do partido reconhecido pelo Governo, o MDB. Entre eles, 10 jornalistas.

Essas prisões tiveram todas as mesmas características: o sequestro, a incomunicabilidade. As pessoas foram […]

Se a amizade entre Celso Furtado e Antônio Callado começou na década de 1940, no Rio de Janeiro, em uma redação de jornal, ela logo se expandiria. A dupla compartilharia projetos literários e posicionamentos políticos afinados contra a ditadura militar. Nesta carta, Callado comenta sobre o processo de escrita do seu romance Quarup e promete um ensaio para a revista francesa Les Temps Modernes, cuja edição especial sobre o Brasil seria organizada por Furtado, seguindo sugestão de Jean-Paul Sartre.

Guanabara, 9 de fevereiro de 1967

Meu caro Celso, sua carta de 14 de janeiro só me chegou às mãos a 3 de fevereiro, véspera do Carnaval, quando eu estava de malas prontas para fugir para Teresópolis. Mas me valeu uma excelente visita do Lucio Costa. O Lucio chegou aqui em casa entre nove e […]

Quando o mundo começava a amargar os horrores da Segunda Guerra Mundial, o húngaro Paulo Rónai se dedicava, solitário, a aprender português em sua terra natal. Mais que isso: ele traduziria 33 poemas de 23 poetas brasileiros, reunidos na publicação Brazilia Üzen: Mai Brazil költök [Mensagem do Brasil: os poetas brasileiros da atualidade]. Aquela era a primeira vez que, na Europa Central, “liam-se versos brasileiros e se podia entrever a existência do Brasil, até então só conhecido como produtor de café”, afirma ele. A inédita iniciativa intelectual, reconhecida pelo então presidente Getúlio Vargas nesta carta, foi uma espécie de passaporte para o professor e tradutor fugir dos campos de concentração em direção ao Brasil, sua pátria por adoção.

Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1939

Ao Senhor Professor Paulo Rónai.

Tenho a satisfação de acusar o recebimento do vosso livro Brazilia Üzen [Mensagem do Brasil], contendo poesias brasileiras traduzidas para o idioma húngaro, que, com uma amável carta, […]

Em 1946, o escritor mineiro João Guimarães Rosa lançava Sagarana, livro de contos que introduziu a temática regionalista universalista, pela qual se notabilizaria. A chegada ao hibridismo entre saga, radical germânico que significa lenda, e rana, palavra de origem tupi que expressa semelhança, levou tempo. A primeira versão da obra data de 1938, quando o escritor, sob o pseudônimo de Viator, inscreveu o livro então intitulado Contos no concurso Humberto de Campos, promovido pela livraria José Olympio. Desbancado por Maria Perigosa, de Luís Jardim, o livro terminou na segunda colocação. Contudo, as doze histórias ambientadas no sertão de Minas Gerais deram corpo a um clássico da literatura brasileira. Em carta ao jornalista João Condé, autor da coluna Arquivos implacáveis, Rosa explicou detalhadamente o processo criativo de Sagarana.

[Sem data]

Prezado João Condé,

Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o […]