Detalhes da Carta

Neste dia 10 de dezembro de 2020, comemora-se o centenário de Clarice Lispector. O Instituto Moreira Salles celebra vida e obra da escritora com o lançamento do novo site de Clarice. O correio IMS participa das comemorações reproduzindo, abaixo, uma crônica do livro A descoberta do mundo (1984), em que Clarice publica uma carta escrita por Fernanda Montenegro. A atriz evoca o mundo particular, delicado e misterioso da escritora, num ano de grandes dificuldades para o teatro brasileiro, marcado pela repressão da ditadura militar.

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro.

Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada:

“Clarice,

É com emoção que lhe escrevo, pois tudo o que você propõe tem sempre essa
explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada,
desesperada e guardada.

Ao ler meu nome, escrito por você¹, recebi um choque não por vaidade, mas por
comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se
representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros. Telefonemas ameaçam o
terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.

E o nosso mundo, Clarice?

Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente.
Mas aquele mundo de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos
descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não a verá. Quando eu tinha quinze anos
pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa
melancolia de ‘canção sem palavra”, tão comum no século XIX. O amor no século XXI
é a justiça social. E Cristo que nos entenda.

Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice,
estou pedindo desculpas por este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com
você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou
aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é o caso.

Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que
fizermos, não a faremos para nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim
que explico pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra mentir. E
com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem
devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.’ A
luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba
tudo.

Voltando às ‘verdades duras’ de que você fala: na minha profissão o enganar é a
minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda
particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a
barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um livro meu²). Nós sabemos o que significa
esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso
já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só
um momento.

Com intensa comoção.

Fernanda”

Crônica do dia 19 de outubro de 1968 do Jornal do Brasil.


[1] N.S: Menção realizada em crônica do dia 7 de outubro de 1967.

[2] N.S: A paixão segundo G.H (1964).