Detalhes da Carta

A cronista brasileira Elsie Lessa envia ao filho, o jornalista Ivan Lessa, esta carta em que faz uma espécie de levantamento genealógico afetuoso da família, especialmente de sua avó, bisavó de Ivan. Escrita em Londres, para onde Elsie Lessa se mudara com seu companheiro, Ivan Pedro Martins, havia três anos, ela quis estar perto do único filho e acompanhar o crescimento da neta, Juliana, nascida em 1976.

Londres, 30 de setembro de 1980

Meu filho,

Afinal chegou o dia desta carta, que me pesa nas entranhas acho que desde o dia – foi 27 de novembro – em que senti você mexendo dentro delas. Sossegue, não é briga. Só amor, nós que somos gente de briga, violentos, temperamentais. Somos. Aceite. Difícil eu falar, você escutar, seja lá o que, sem contestar, arguir. Seu pai, o velho Lessa,[1] aprendeu essa lição, quem sabe com o pai dele. Quem sabe a gente pode aprender. Pare de brigar comigo, consigo, com a vida, com o nosso, desculpe, Brasil. O Bananão. É ele. Sei tanto de você, meu filho, sofro duplamente por entender demais, inclusive no que é parecido comigo. Esta é aquela mão que pegou de manso no seu braço quando você assistia, as lágrimas correndo pela cara, uma derrota do Brasil.[2] Pela qual eu, você, nós tínhamos torcida, nessa infelicidade de ter cabeça e coração. Reparou que vivemos todos nos agredindo, eu, você, Ivan, até Elizabeth,[3] que é mansa e calada, com esse pobre Brasil, como se ele fosse uma espada, uma bola de ferro com que agredir um ao outro? Ivan me cobra ele, eu cobro dele, você me fere com ele. Devemos pensar e sentir igualzinho com referência a ele, cada um do seu jeito. Vamos racionalizar isso? Não temos outro, meu filho. Ponha um desgraçadamente, se você quiser. Nem é preciso. É o nosso. Nossa abençoada Juliana – que é que sabemos do que será a vida dela? – se um dia, como a gente (e é) for procurar raízes, identidade, catar informações, dará com o Bananão. Vamos aceitá-lo, como a gente tem que aceitar pai, mãe, os irremediáveis deles que nos machucaram.

Viver é machucar-se. As lágrimas com que eu arrumei as malas, lá no Alto, para realizar o sonho maior da minha vida: vir para cá. Deixar tudo o que era inevitavelmente meu. Sair para o que nunca seria meu. Seria uma turista alegre, abençoando cada minuto, meio deslumbrada de ter podido realizar um sonho que decerto começou comigo, deitada no chão, o cotovelo no assoalho, ouvindo meu pai[4] falar, encantado, da Inglaterra. Dizer que foram os anos mais felizes da vida dele. O que irritava, muito justamente, mamãe. “É, mas veio casar com uma brasileira, não foi?”. Foi. Ah, as brigas de pai e mãe. Os condicionamentos psicológicos para o resto da vida. Sabemos disso. Aí entro eu. Como você me cobra eu ser como sou, a vida, sua minha. Quem sabe dava para parar de cobrar, aceitar. Não estou fazendo média. Reparou que nunca houve solidariedade mais solidária, mais autenticamente amiga e leal do que a minha para você?

Examine qualquer circunstância, não dá errada. E também não é complexo de culpa, que quem sabe eu podia ter, mas não tenho. Sou tão lúcida, tão autocrítica. Sabia isso ainda vivendo as horas amargas. Eu só era o que eu podia ser. Não fui eu que me fiz, nem às circunstâncias. Dentro dela, dei o melhor de mim mesma, especialmente para você, que era onde eu não queria falhar. E às vezes você me diz: “Olha o que você fez de mim”. E você, quando parar de brigar consigo mesmo e com a vida, deixará vir à tona tantas maravilhosas (é isso mesmo) qualidades que a vida lhe deu: talento, decência, generosidade, inclusive um coração mole, que você faz tudo para proteger (errado), endurecendo-se.

Como a gente custa, com inteligência e sensibilidade maiores do que o comum, a se aceitar, a si e aos outros. Eu estou custando. Mas já caminhei um pedação. Quando fecho os olhos para conversar com Deus – o quê? –, uma coisa de que a gente precisa para aguentar os inenarráveis e terrivelmente sofridos mistérios da vida, já estou num bom diálogo com ele. Tem que me entender melhor e aceitar do que eu a Ele. Quem é o Perfeito, o Pai, o Criador, de nós dois? Ele ou eu? Jogada meio marota, que me satisfaz. Diminui minhas responsabilidades, me dá um certo chão de repouso para quem está na reta final, tão consciente disso, do pulo da última plataforma. Tão melhor, como meu pai, maravilhoso, nas suas dúvidas, no seu medo, na sua fraqueza, na sua fé, cantando, sem voz, um hino da minha infância “Com tua mão segura bem a minha, pois eu tão fraco sou, ó Salvador, quando eu chegar à beira desse rio, que tu por mim quiseste atravessar…”. Fora o inferno, as caldeiras, o choro e o ranger de dentes que a igreja protestante me deu e que ficam um tormento vitalício, vamos ser justos, me deu umas coisas boas: “Meu bom pinheiro do Natal”, festa de igreja, escola dominical que eu ia de sapato branco (até hoje é luxo para mim), a doçura de minha avó – a pessoa que mais gostou de mim e me entendeu, longe. A vontade que tive de poder ser para Juliana[5] o que ela foi para mim – quem sou eu, primo?[6] Como eu gostaria de falar mais dela para você, Elizabeth, Juliana. Essa era inglesa, nunca lhe ouvi uma voz alta. Doce e meiga, senhorial, alta, magra, aqueles olhos azuis. Tão, tão lúcida. Como a gente é implacável com pai, mãe, os adultos.

Com sete anos eu tinha posto, bem aproximado da verdade, cada um na sua letra de arquivo. Ela foi o ser humano mais próximo da perfeição que eu conheci. Engraçado, tive um namorado bobo que dizia isso de mim. Só que vovó era. A vida dela. A beleza mais disputada e cortejada de Capivari. Solteirona, aos 23 anos, por excesso de escolha. Um médico francês: Jules. Um primo chato, que falava “Tio José, me dá um forfé”.[7] Ela desmanchava o casamento. Como dizia ela: ia casar com um gramático. Gente que vinha da Corte para ver a Belisária Campos do Amaral.[8] O pai se preocupava muito com aquela filha com 3 casamentos desmanchados, por sua vontade, em Capivari, nos anos 1800. E quantos? Do último, não teve coragem de enfrentar mais o pai, com aquelas loose manners.[9] Correu até o fundo do quintal. Gritou: “Pai, não quero casar…” – “Não case, diabo…” Encontrou no trem, vindo de São Paulo, o Júlio Ribeiro. Ia com Adolfina, tia avó dos Motta, Nelson, as duas namoradeiras, alegres. Tio Amador, que as fora levar à estação: “Vocês vão viajar com o romancista, o Júlio Ribeiro”. Ele ia lendo um jornal. Continuamos todos lendo até hoje. Ela viu as mãos que o seguravam. Que bonitas mãos, de intelectual, muito tratadas, muito brancas, ela habituada com aquelas mãos rudes dos fazendeiros de Capivari. Assanhada, foi pedir o jornal. Vieram conversando até Campinas. Onde ele ia descer, já viúvo, com 2 filhos, para casar. O cunhado esperando, com o trolley. Ele, já se sabia tuberculoso, caprichou na tosse, curvou mais do que o habitual: – “Estou muito doente”. Chegou, havia um feijão aguado para o almoço. E a diva tocava piano, ele que não gostava de música. “Não caso com essa desgraçada.” A mulher da minha vida é a Belisária do Amaral Campos, branca, ariana, quatrocentona, ele que gostava das três coisas. E de mulher bonita. A primeira, filha do matemático do livro, Trajano, a Sofia,[10] essa bebia escondido e morreu tuberculosa, deixando-lhe um filho louco, o Jorge, outro simplório, nosso querido Joel (“minha virtuosa irmã”) o que tomava cachaça, na beira do rio, lia algumas cartas, achava uma grande bobagem, jogava tudo dentro d’água: “uma bobajada muito sem importância”, como respondeu no processo que a Prefeitura de Sorocaba lhe moveu.

Mas a gente estava no namoro de vovó: ele desmanchou o casamento, continuou a viagem até Capivari. Vovó estava na igreja, era fácil distingui-la: “eu era a moça mais alta”. Ele, aquele americanão (como ela achava) de sobretudo de tweed, narigudo e com tosse também era impossível deixar de ser visto na igreja a que ia, já ateu, por causa dela. Foi pedir ao tio José, pai dela, “Sou pobre, viúvo, tuberculoso, com dois filhos”.[11] Aí ela quase apanhou. Corre ao tio, Cesário Motta (aquele que tem (ou tinha) estátua na Praça da República, padrinho de mamãe: Tio, examine ele, se tiver vida por um ano, eu caso por esse ano. Casou, deu-lhe vida por 9 anos. Foram felizes, acho.

Ela era mansa e inteligente. “Belisária, você é um brilhante por lapidar. Belisária, você é um ser naturalmente religioso, largue dessas bobagens de catolicismo. Se quiser ter uma religião, leia a Bíblia”. Deu-lha. Vá às fontes. Tão ele. A primeira filha, Aryana. Como você, tinha preconceitos raciais. Detestava bacharel, “mineiro de nascimento, paulista de criação”, implicava com nortista. Esquecia o leite das crianças, comprava quadros, edições princeps, encadernações preciosas, xales de seda da Índia para ela usar sobre o vestido de chita. Adorava a mãe, a velha Maria Francisca, professora de primeiras letras em Sabará, a que casou com o George Washington, americano decerto mau caráter (ou terá morrido?) que um dia a deixou para sempre, com o filho pequeno, em Sabará, ensinando as suas “meninas”. Era professora. Mulher valente, mineira previdente, contando os seus tostões, discutindo o preço do próprio túmulo com o coveiro: “Não posso, não, seu Joaquim. É muito caro”. Se separando do filho e companhia única porque queria vê-lo estudado, doutor, mandava-o para Baependi, com as suas magras patacas: “Mande o sapato para botar meia-sola, ajunte as suas meias e me mande pra remendar, fim do mês, quando receber, compro os seus livros”.

Tudo gente do Bananão, nossa gente. Vovó ainda: aos 32 anos, viúva, paupérrima, o marido morrendo em casa e cama emprestada, em Santos, na casa do pai do poeta Martins Fontes, os livros bem amados, os móveis, tudo que tinha salvo daquele naufrágio, deixado num portão alheio. Pega a filha de 7 anos[12] pela mão, desembarca em S. Paulo, pede um fiador para alugar uma casa, vai a um leilão, arremata uns móveis usados. Dá alguns a um carroceiro, que não tinha dinheiro para pagar. “Minha filha, naquele tempo mulher sozinha ou era prostituta, ou cozinheira, costureira, dona de pensão. Foi dona de pensão. Vinte e sete anos. Fez uma pequena fortuninha. Formou mamãe professora. Botou um diploma na mão de Cornélio Pires, Zília, Ambrosina (as irmãs), Albertinho, Lavínia, Zezinho, filhos do irmão, Amador, quando ao se casar pela segunda vez, tia Carlina não lhe aceitou a ninhada. Incorporou Minguito (Domingos Goulart de Faria) quando de hóspede passou a filho. Quando a mãe enviuvou, veio buscá-lo de volta para Itu, não podia mais pagar pensão nem estudos. “Imagine, dona Miquita, interromper os estudos do menino. Eu fico com ele até a formatura.” Dessa eu me lembro, o termômetro de ouro com uma esmeralda que vovó lhe deu, na ocasião. Me levava de manhã com ela ao mercado, a que ia todos os dias, às 7 horas, no frio de S. Paulo. Eu adorava. Às quartas-feiras eu tinha O Tico-Tico,[13] me abria conta na tipografia (livros, lápis, caderno) e um crédito de 200 réis para cada um dos netos na Confeitaria Java, em frente. Quando chegava um “colportor” (sabe o que é isso? gente que vende livro a domicílio) protestante vinha, tão bonita, o cabelo branco repartido no meio, tão doce, tirando o avental: “Elsie, Halley, Julinho, venham escolher livros”. Assim li Os irmãos espanhóis, O convento desmascarado, Miguel Strogoff. Me deu tudo o que tive de bom na infância e na adolescência, meus pobres pais não podiam me dar nada. Que Deus os abençõe, não estou cobrando, contando. Eram estratosféricos, mamãe como ela era e você conheceu, inteligente, engraçada, com senso de humor, boa como um pão, generosa, mas meninota, incapaz de ter ou gerir nada, meu pai pior ainda. Vivemos na pensão de vovó, em dois quartos, até os meus 7 anos. Fomos para nossa casa, experiência que não deve ter durado muitos meses. Aluguéis atrasados, cobrança na porta, vovó vindo com cesto de comida pra gente, parentes ricos trazendo roupa usada, uma tristeza. Fomos morar de empréstimo numa casa que Tiago Mazagão, casado com Hercília, irmã da Candinha, mulher do Amadeu Amaral (O feijão e o sonho),[14] tabelião rico nos deu. Sabe-se lá por quê, papai vendeu a banheira. Ou sabe-se: falta de dinheiro. Não tínhamos luz na casa, em S. Paulo, 1926. Eu morria de pavor que uma colega viesse me visitar de noite e desse com aqueles lampiões de querosene (2) que nos alumiavam. Na nossa casa, bondade de mamãe, baixavam as épaves[15] todas do resto da família: tio Andrew, avô da Cynthia, engraçadão, bonito, malandro, bêbado, safado como ele só. Ou safado para os nossos estândares. As irmãs não o recebiam. Claro que mamãe lhe dava quarto, ou cama, e a comida que tivesse. Ou tio Julio, tristonho, bonito, meio catatônico, épave também de um casamento infeliz, baixava lá com a gente. Tia Antonieta, essa não era épave, só feinha, solteirona (filha de galinha velha, como dizia mamãe), não cresceu muito, boa como um pão, triste e só. Eu, com a ânsia de beleza, de casa arrumada, de vida, que tenho até hoje, 60 anos depois, vendo Zezinho, (esse morava no porão), bobão, passar com o urinol cheio de manhã cedo: “Lá vai a cabeça do rei…”. Guardei horror de urinol até a Eternidade. Comida de marmita. Ah, mamãe tinha um hóspede na casa emprestada: esse morava na torre, o João Aredes. A torre é porque a casa tinha sido de um José Feliciano, professor de mamãe, astrólogo, colaborador do Estadão que foi dono da casa. João Aredes era linotipista do Estado, chegava e acordava tarde, mamãe esperava com o pratão feito esquentando em cima da panela. Cobrava, ele não podia pagar, ficava comendo, magro, triste, humilhado, mamãe infeliz de ter cobrado, cada qual mais pobre e precisado. Nunca pude esquecer. Eu fugia para o quintal (era grande), subia numa pitangueira, punha manteiga e açúcar numa fatia de pão e ia sonhar com a vida. Ou subia para a torre, quando o João tinha saído para o trabalho, olhar a vida lá de cima, que me parecia linda. A casa dos Azevedo Antunes, hoje o homem mais rico do Brasil, rodeada de jardim e quintal, automóvel na porta, cortinas de filé,[16] cristais brilhando nas cristaleiras, a dona da casa rodando entre panelas fartas na cozinha grande. Então, eu 13 anos, namorava, ele nunca soube, o Frederico, filho da opulenta família, que saía num Ford aberto no carnaval. E nunca olhou para meus 13 anos magros, feios, desenxabidos, esfolando o cotovelo na janela da torre e pensando como devia bom ser rico.


 

[1] N.S.: Orígenes Lessa, jornalista e escritor, pai de Ivan Lessa.

[2] N.S.: Referência à Copa de 1950, quando, na final, no Maracanã, o Brasil perdeu de 2 x 1 para o Uruguai.

[3] N.S.: Anna Elizabeth Ribeiro Fiúza, com quem Ivan Lessa passou a viver na década de 1970 e ficaria até o fim da vida.

[4] N.S.: Albertino Pinheiro, jornalista, professor e tradutor brasileiro nascido em 1954. Era filho de Joaquim Honório Pinheiro, um dos fundadores da Igreja Presbiteriana no Brasil.

[5] N.S.: Juliana Fiúza Themudo Lessa, nascida em 3 de junho de 1976, filha única de Elizabeth e Ivan Lessa.

[6] N.S.: Um dos bordões do Primo Pobre, do programa humorístico “Balança mas não Cai”.

[7] N.S.: Corruptela do francês, forfait, punição, castigo.

 [8] N.S.: Nascida em 1858, em Capivari (SP), em 1881 casou-se com Júlio Ribeiro, o romancista de A carne, ele estava viúvo de Sophia Aureliana de Souza Ribeiro e tinha três filhos: a menina, Selomith, Jorge e Joel. Em 1885 o casal já tinha mais quatro filhos: Julio, Cintila, Arya e Maria Francisca, cujo nome seria posteriormente mudado para Maria Julia, chamada de Cocó. Maria Julia viria a ter cinco filhos: Maria Julia, Elsie Lessa, Halley Pinheiro, Albertino Pinheiro Jr. e Julio Ribeiro Neto. O romancista de A carne, portanto, era avô de Elsie Lessa e bisavô de Ivan Lessa.

[9] N.S.: No inglês, maus modos.

[10] N.S.: Sophia Aureliana de Souza Ribeiro.

[11] N.S.: A primeira filha, Selomith, estava morta.

[12] N.S.: Maria Julia Ribeiro Pinheiro, mãe de Elsie.

[13] N.S.: Primeira revista em quadrinhos no Brasil.

[14] N.S.: Romance de Orígenes Lessa

[15] N.S.: Palavra francesa que significa “destroços”, “pessoa desamparada que não encontra seu lugar na sociedade”.

[16] N.S.: Tipo de renda artesanal feita originalmente no Nordeste.