Em um concerto beneficente para o Wadworsth Atheneum, um dos museus mais antigos dos Estados Unidos, Patti Smith cantou a cappella os versos de “O tigre”, do poeta inglês William Blake. A rainha do punk rock leu o poema de 1794, tendo em mãos o caderno preto que pertencera a Robert, irmão do poeta, morto aos 24 anos. “Tiger, tiger, burning bright,/ In the forests of the night:/ What immortal hand or eye/ Could frame thy fearful symmetry?”[1], a voz de Smith ecoava no auditório, em outubro de 2011.

Devastado com a perda do irmão,William Blake escrevera nessa caderneta algumas de suas composições mais importantes. Não se sabe ao certo como Patti Smith conseguiu retirar o item da guarda do British Museum, mas, de toda forma, a cantora, escritora e fotógrafa, de 72 anos, o tinha nas mãos em suas apresentações mundo afora. “Eles me disseram que, se eu chegasse ao museu às 8h, poderia olhar o caderno. Acharam que, por eu cantar rock and roll, nunca acordaria tão cedo”, brincou.

Não à toa a obra de Blake influencia as canções da autora do histórico álbum Horses (1975). Separados por mais de um século, os artistas unem-se ao mostrarem apreço por um universo típico do Romantismo. É o que se lê em uma carta que o inglês escreveu ao padre anglicano e médico John Trusler, em 23 de agosto de 1799, na qual apresenta uma espécie de manifesto para o movimento literário.

Eu sinto que um homem pode ser feliz neste mundo, e sei que este é um mundo de imaginação e visão. Aos olhos de um avarento, um guinéu é mais bonito que o sol, e uma bolsa surrada com o uso de dinheiro tem mais belas proporções que um vinhedo cheio de uvas. A árvore onde se movem algumas lágrimas de alegria nos olhos de alguns, para outros é apenas uma coisa verde no meio do caminho. [2]

Devo explicar o motivo para a resposta. Dr. Trusler havia encomendado ao poeta uma série de gravuras sobre moral e dogmas da Igreja. De acordo com a British Library, instituição onde a carta é mantida, as imagens deveriam evocar, de maneira explícita, temas como Orgulho, Maldade e Benevolência. John Trusler recebeu, no entanto, um trabalho à moda de um dos pioneiros do Romantismo: imagens sobrenaturais, fantasmagóricas e oníricas. A carta de Blake não só expressa sua concepção de arte e seus projetos artísticos, mas inclui passagens biográficas relevantes.

Nascido em 1757 no famoso bairro londrino do Soho, William Blake era filho de um vendedor de roupas e, desde cedo, apresentava comportamento peculiar. Mostrava talento incomum para o desenho e relatava aparições fantasmagóricas. Aos quatro anos, o menino disse ter visto o rosto de Deus de uma janela. Aos dez, observou a imagem do profeta Ezequiel por baixo da copa de uma árvore e, tempos depois, jurou ter contemplado a ascensão aos céus do espírito de Robert.

Em 1779, Blake iniciou os estudos na Academia Real Inglesa. Estava com 22 anos e passava a unir os conhecimentos artísticos à literatura de excelência, ao criar um método para ilustrar os poemas. A obra seminal “Songs of Innocence and of Experience” (1789) segue o padrão dos illuminated books, os encantadores desenhos em pergaminhos medievais que, entre nós, passaram a ser conhecidos como iluminuras.

Destaco a influência das assombrações na arte de William Blake em outra passagem da carta a Trusler. “Eu vejo tudo o que pinto neste mundo”, escreveu o poeta. De acordo com pessoas próximas a Blake, as visões fantasmagóricas eram descritas com naturalidade. Certa vez, sua mulher confessou: “Eu tenho pouca companhia do Senhor Blake. Ele está sempre no paraíso.”

A carta a Dr. Trusler critica os céticos e realistas, como o destinatário. “Alguns veem a Natureza como algo ridículo e disforme (e eu não devo me espelhar neles), e alguns não veem Natureza alguma.” Na verdade, aos olhos do poeta inglês, todo o ideal romântico era apenas realidade. “Natureza é a própria imaginação”, ele afirmou.

Assim é para Patti Smith. Na noite do dia 15 de novembro do ano passado, juntei-me às quatorze mil pessoas que lotaram o Memorial da América Latina, em São Paulo, para assistir ao concerto da cantora. Sob um céu ameaçador, a mulher responsável por imprimir poesia ao movimento punk trouxe os seus maiores sucessos ao público brasileiro e fez um show elegante. Para uma plateia tão vasta, a performance intimista de “O tigre”, realizada com frequência, acabou por não fazer parte do roteiro da autora de livros como Só Garotos (2010), Devoção (2017), entre outros.

Também não entrou no setlist da fria noite paulistana a canção My Blakean Year, cuja inspiração central, como o nome sugere, é William Blake. A música do álbum Trampin’ (2004) surgiu a partir de um sonho da multiartista. “Quando acordei, a canção veio à minha cabeça. Com a Revolução Industrial, o trabalho de gravação realizado por Blake ficou obsoleto por causa da prensa industrializada. Então, nos momentos difíceis, eu penso nele”, ela contara à seleta plateia do Columbia College Chicago, em 2010.

Ghost Dance fez o imenso descampado do Memorial parecer palco de uma celebração religiosa. A voz grave e rouca entrecortada por falsetes da roqueira cravou no público o mantra We shall live again [Viveremos novamente]. Smith, aliás, tem gosto por refrões que funcionam como Leitmotiv. É o que acontece na canção Banga, de 2012, ou no hit Gloria, de seu primeiro álbum.

Neste ponto, há mais uma união entre Patti Smith e William Blake, agora no aspecto formal. Lembro de “O tigre”. As repetições de Tiger, Tiger, no início e no fim do poema, fazem com que o bicho fique na mente do leitor. Ao terminar o verso inicial com a aliteração burning bright, o artista parece dar vida à fera. Augusto de Campos, em sua tradução para o português, mantém a musicalidade em “Tigre! Tigre! Brilho, brasa”.

O poeta britânico morreu no dia 12 de agosto de 1827, deixando inacabada a ilustração de A Divina Comédia, de Dante. Consta nas enciclopédias que Blake não resistiu a uma insuficiência hepática, mas, à época, ninguém sabia qual era a enfermidade. O inglês descreveu o próprio estado com poesia: “Esta doença cujo nome não existe”. É razoável acreditar que o fantasma de Blake assombre Patti Smith. Enquanto a imaginação da roqueira produzir maravilhas, não sentirei medo.


[1] “Tigre! Tigre! Brilho, brasa/ Que a furna noturna abrasa,/Que olho ou mão armaria/ Tua Feroz symmetrya?”, na tradução de Augusto de Campos.

[2] Citações traduzidas pelo autor.


 

*Gustavo Zeitel é jornalista e estagiário do Instituto Moreira Salles. Já colaborou com a revista piauí e é autor do livro de poesias o submundo do meu quarto (Multifoco, 2018).