Faria mais sentido se a paisagem outonal do Rio de Janeiro fosse uma pilha de mortos. Onda após onda, a praia de Ipanema não diz nada. O morro Dois Irmãos está em silêncio. Descobrimos que, em tragédias, cidades exuberantes se igualam às feias. No momento, talvez seja uma tortura maior viver em um lugar bonito. Pouco importa. Se tiver a tentação de sair de casa, melhor acompanhar, do sofá, os passeios do errante Simon Tanner em cenários de clima temperado.

O jovem não se estabelece em emprego algum. De trabalho em trabalho, vaga por cidades desconhecidas e encontra gente que possa lhe dar abrigo. Simon tem quatro irmãos espalhados pelo globo: Kaspar, Hedwig, Emil e Klaus. A família encurta as distâncias pela correspondência epistolar.

No livro Os irmãos Tanner, escrito em 1907 pelo suíço Robert Walser (1878-1956), as cartas apresentam os personagens da trama, centrada em Simon, mas cerzida pelos seus irmãos. “Estás de novo, como já disse tantas vezes no passado, sem uma ocupação permanente e sólida, como fiquei a saber com grande pesar meu, e para mais na boca de estranhos”, escreve Klaus ao caçula nômade.

Em seguida, é a vez de Simon introduzir Kaspar na trama. “Somos realmente excêntricos. Vagamos pelo mundo como se só nós e mais ninguém vivesse nele. Vem ter comigo depressa. Posso dar-te guarita, como daria guarita a uma noiva”, registra. De fato, o caçula poderia cumprir o prometido. Encontrou um quarto na casa de Frau Klara, mulher casada, com quem os jovens inquilinos se relacionam.

Assim como os monólogos, as cartas contribuem para a realização de um livro de grande densidade psicológica. Se as divagações se tornam um pouco repetitivas com o avançar da obra, as epístolas estão presentes em momentos fulcrais e, invariavelmente, estabelecem uma experiência literária particular. A carta de Klara a Hedwig é uma narrativa própria, mas ganha sentido ao caracterizar os desejos da remetente no contexto do romance. “Querida amiga, irmã do meu Kaspar, tenho de escrever-lhe estas linhas. Sabe o que me ofereceu o seu irmão Simon? Ofereceu-se a si mesmo”, revela com ar malicioso.

Simon Tanner é um niilista. E não há fato maior que perturbe o leitor. Considera desimportante a vida cotidiana ou o próprio futuro. Com tantas alternâncias de emprego, parece estar desgarrado do sistema capitalista. Seja como livreiro ou criado, pede demissão logo nos primeiros dias de trabalho e, com arrogância e inconformismo, profere discursos aos patrões. “Uma carta de recomendação? Não, não me escreva nenhuma carta. Eu próprio me recomendarei a partir de agora. Contarei apenas comigo mesmo, quando alguém perguntar pelas minhas credenciais”, brada Simon, assustando o chefe de um escritório de advocacia.

O personagem não demonstra o menor sinal de angústia nos períodos de desemprego, aspecto trabalhado com esmero por Robert Walser. Expoente da literatura em língua alemã, o escritor foi a principal influência de Kafka, além de ser admirado por Musil, Walter Benjamin, Coetzee e Vila-Matas.

Nascido na cidade de Biel, Walser escreveu nove romances e mais de mil contos. Seu livro mais aclamado é Jakob von Gunten, publicado em 1909. Durante a carreira do escritor, muitos dados biográficos misturaram-se à ficção. Não é absurdo afirmar que o autor tenha adotado o mesmo procedimento ao escrever a história do jovem Simon. Quando morou em Zurique, Walser mudou nove vezes de emprego. E um detalhe interessante: morreu louco, diagnosticado com esquizofrenia.

A leitura de Os irmãos Tanner oferece alguns minutos fora do inferno em que estamos, sobretudo pelos cenários descritos por Walser. A calma do jovem Simon abraça a natureza pacífica, muito similar àquela encontrada nos cantões suíços. Não à toa, podemos imaginar bâmbis saltitantes, à moda de Walt Disney, entre arbustos e lagos cristalinos. É a única forma de entrarmos em contato com a natureza, outrora relegada ao papel de bibelô cotidiano. Aliás, se fosse preciso estabelecer uma trilha sonora para o romance, certamente “As quatro estações”, obra mais conhecida do compositor italiano Antonio Vivaldi, seria escolhida.

Robert Walser marca a efemeridade do tempo ao associar a natureza a cada período do ano. Muitas vezes, informa literalmente, no início de cada capítulo, em qual estação Simon Tanner se encontra. O escritor mostra forte poder descritivo em frases com luzes poéticas. “Chegou o inverno. Notável: o tempo passava por cima de todos os bons princípios como por cima de todas as falhas que não se consegue domar. Havia nesta passagem do tempo uma beleza que fazia esquecer e perdoar.”

Ao término do livro, voltamos à “Marcha fúnebre”, de Chopin. Vivemos um choque de mundos. Lá fora, temos a realidade insuportável, visível no vazio das ruas da cidade. Em segundo lugar, existe o mundo da ficção, ao qual atribuímos o nome Literatura, arte capaz de sustentar almas inquietas. Por último, há uma abstração, o passado, que não voltará nunca mais a existir. Diante do inferno, é melhor abrir um livro e pensar como Simon Tanner: pouco importa.


Gustavo Zeitel é jornalista. É estagiário do IMS e colaborador da revista piauí