Ele avisou no círculo de amigos que passaria um mês fora do país e procurava alguém interessado em habitar a sua casa durante esse tempo. Ela, que estava à procura de uma morada provisória, respondeu ao chamado. E foi assim que, no começo de 2016, Ana Martins Marques ocupou por algumas semanas o apartamento de Eduardo Jorge no Edifício JK, em Belo Horizonte – projeto de Oscar Niemeyer dos anos 1950 onde vivem mais de cinco mil pessoas.

As primeiras mensagens entre eles (ambos poetas) giraram em torno de questões práticas da casa, da vida no condomínio, do acordo que tinham estabelecido. Rapidamente passaram a assuntos mais metafísicos: reflexões sobre a ideia de casa, sobre o processo de partir e de chegar e o significado das deslocações. Até que um dia a conversa fez-se em verso. E assim, e sem que soubessem, começaram a escrever, a quatro mãos, o livro de poemas Como se fosse a casa – uma correspondência, publicado pela Relicário Edições em julho.

Eduardo não sabe dizer em que momento a conversa passou de um registro cotidiano para algo mais profundo. “Eu não saberia precisar essa passagem, talvez porque a realidade das instruções mais práticas exige uma certa profundidade e os próprios poemas necessitem da superfície”, teoriza. Ana diz que foi ele quem teve a iniciativa de responder em verso a uma mensagem escrita em prosa:

Mais do que um poema-resposta, era um poema-escuta que de alguma maneira  ”traduzia” o que eu tinha escrito num e-mail anterior. Há uma parte da correspondência, talvez mais importante até do que as próprias palavras trocadas, que é o gesto de endereçamento, o ato de lançar-se à leitura do outro e de esperar pelas suas palavras; o que importa, então, é não tanto aquilo que o outro responde, mas o simples fato de que ele acolha nossas palavras e também nos acene à distância.

O impulso para a carta-poema inaugural veio depois de visitar a exposição de fotografias de Francesca Woodman, na Fondation Cartier-Bresson, em Paris, conta o poeta cearense. “Eu queria muito realizar uma fotografia com uma amiga italiana, uma espécie de nova mise-en-scène que não foi possível realizar. O livro absorveu esse fato sob a forma de poema.”

Ficou gravada em sua memória uma mensagem da mineira, que sintetiza o rumo dado pela partilha:

Relendo parte da troca de e-mails que tivemos, transcrevo esta mensagem da Ana, que me toca bastante: ”Recebi sua carta (que alegria é ainda receber uma carta), andei com ela na bolsa, dentro de um livro, por vários dias, reli muitas vezes)”. Acredito ainda nessas mensagens de amizade, onde o prazer intelectual da troca passa pelas maneiras de dizer e pelas formas de envio.

A responsável por transformar o diálogo dos dois poetas em livro foi a editora Maíra Nassif, que certo dia propôs a Ana que publicasse algo na Relicário. A poeta lembrou dessa troca íntima de mensagens com Eduardo Jorge e foi consultá-lo sobre a possibilidade de tornarem o conteúdo público:

A princípio tive dúvidas se aqueles poemas poderiam resultar num livro, porque o diálogo entre os textos às vezes é bastante indireto ou abrupto, porque não há propriamente unidade ou ”desenvolvimento narrativo”… Mas aos poucos justamente essa estranheza passou a me agradar, a ideia do livro como uma casa aberta, com as interrupções, os silêncios e as mudanças de foco que marcam qualquer correspondência”, explica a autora de O livro das semelhanças. […]. Costumo brincar que Eduardo e eu lançamos um livro que não escrevemos. Mas isso não é bem verdade, porque houve todo um processo posterior de seleção, reescrita e arranjo dos textos.

 Num dos poemas do livro ela diz:

Quando alugamos um apartamento alugamos
uma paisagem alugamos vizinhos com os quais
cruzamos no elevador a temperatura das manhãs
determinados barulhos certas incidências
do sol poeira alugamos as palavras
que nos dirigem os porteiros as distâncias relativas
dos lugares que frequentamos alugamos os lugares
que passamos a frequentar o cheiro de tinta o toque
dos tacos alugamos o direito de dizer que aí moramos
o salvo-conduto para entrar e sair e mesmo a permissão
para morrer aí alugamos a memória futura
de um apartamento e o direito de metê-lo
num poema

Bem longe do seu apartamento emprestado a ela, ele responde:

moro na cidade explicada
em várias línguas,
muitas delas não-latinas:
não entendo a cidade
na qual vivo, todavia,
enquanto me banho
ou quando os vizinhos
têm sexo, as explicações
da cidade, palavra por palavra,
entram por um ouvido,
saem por outro.

Como se fosse a casa está composto de versos assim, que podem ser lidos como uma conversa entre dois poetas ou como um diálogo interior sobre o lugar que ocupamos no mundo. Poemas que são como anotações de um diário; poemas que um dia foram cartas, cartas que foram parar dentro de um poemário.

Publicado o livro e finalizado o pacto de ocupação da casa, os dois poetas  continuam a se corresponder. Além de mensagens virtuais, às vezes usam o correio para fazer chegar a Belo Horizonte ou Paris um cartão-postal, um livro com um bilhete dentro, um envelope com folhas manuscritas. “É curioso: começamos a nos corresponder por causa de uma casa, escrevemos um livro por causa dessa correspondência e então passamos a nos corresponder por causa do livro ”, conclui Ana Martins Marques.

*Ricardo Viel é jornalista e trabalha na Fundação José Saramago, em Lisboa, de onde colabora no blog do Correio IMS.