Más notícias, 1895, por Rodolfo Amoedo. Óleo sobre tela, 100 x 74 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Quando o brasileiro Rodolfo Amoedo pintou Más notícias (1895), nem de longe causou a reação polêmica de Estudo de mulher (1884), quadro célebre do artista, que também tinha como tema a figura feminina. Neste caso, houve acusações de imoralidade, tamanho o realismo descritivo que o artista usou para representar o corpo nu, de bruços, evitando idealizações mitológicas. Não é Vênus quem aparece despida, mas uma mulher comum – o que, para os padrões morais da época, fazia muita diferença. Más notícias pode ser vista como contraponto à tela de 1884, pois representa o feminino de outra maneira. O crítico de arte Gonzaga Duque, contemporâneo de Amoedo, descreve assim a pintura:

Más noticias, atestado das excepcionais qualidades do mestre, do seu vigor de pintar, da firmeza magistral do seu desenho, da limpeza de suas tintas e do poder expressivista da sua arte, porque essa bela mulher, senhora de lindas vestes e mais lindos olhos, humedecidos de lágrimas, diabolicamente negros, é um flagrante negros, é um flagrante d’alma feminina, um instantâneo maravilhoso do tormento de um coração que a carta, amarrotada nas suas lindas garras de airosa dama senão de deusa contrariada, acaba de sangrar.

Mas o que diz a carta que a “airosa dama” recebeu? Que más notícias são essas a que o título alude? Bem, o pintor se esmerou para que as perguntas, ao invés de esclarecidas, dessem lugar a uma atmosfera de mistério. Em primeiro lugar, é claro, está o fato de que não é possível decifrar as poucas linhas visíveis da carta. O pintor as fez com pinceladas bem miúdas, que não chegam a formar letras de verdade. Além disso, nesta obra, Amoedo misturou dois tipos de pintura: a pintura de gênero e o retrato.

A pintura de gênero é aquela que se dedica a representações da vida cotidiana, inclusive dos espaços domésticos. É o caso aqui: vemos uma cena intimista, que revela algo da vida privada dessa mulher. A destinatária da carta é representada com cuidados descritivos, seus traços são desenhados com clareza. Curiosamente, no entanto, não sabemos quem é ela, pois seu nome não é revelado no título do quadro, como costuma acontecer com os retratos. Isso aumenta o clima de mistério da cena, ao mesmo tempo que reforça sua verossimilhança. É como assistir a um bom filme ou peça de teatro, quando somos levados pela história que está sendo contada, sem darmos muita importância ao fato de ser tudo fictício.

Mas podemos também enxergar na tela algumas pistas, indícios do que pode ter acontecido. A pose da figura, por exemplo. A dama apoia o queixo na mão, numa posição que é clássica na tradição da pintura e que também é a pose típica da atitude melancólica e pensativa (o exemplo mais célebre é a gravura Melancolia I, de Albrecht Dürer).

Talvez não seja por acaso que, neste quadro, é a mão esquerda a fazer a pose melancólica, a mesma mão em que se usa a aliança de casamento – o pintor escolheu uma posição que evidencia o dedo anelar sem aliança. A outra mão amarrota a carta. Associam-se assim, pela linguagem visual, as ideias de núpcias, más notícias e tristeza. Somos levados a crer que se trata de uma carta de rompimento do compromisso que levaria ao casamento. Neste ponto, podemos apreciar o requinte de Amoedo na expressão do rosto da dama, o elemento mais desafiador do quadro. Não é possível definir o que se passa no olhar dela: tristeza, decepção, contrariedade, calma resignação, fria vingança – todos esses sentimentos e outros mais podem ser vistos ali.

Quanto à biografia do pintor, não se sabe ao certo onde ele nasceu. Há dúvidas se foi em Salvador ou no Rio de Janeiro. O que sabemos com segurança é que ele viveu parte da infância na Bahia, e o historiador Quirino Campofiorito conta que os pais de Amoedo eram artistas de teatro – será que o convívio com o mundo dos palcos colaborou para que o artista fosse tão hábil na composição das cenas que pintava? Sabemos ainda que Amoedo mudou-se para o Rio de Janeiro em 1868, e daí em diante sua biografia é mais fácil de ser seguida. Alguns anos depois, ele ingressou na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) onde foi aluno de Victor Meirelles, importante pintor do período. Meirelles seria uma referência permanente na arte de Amoedo, cuja tela, O Sacrifício de Abel, lhe rendeu o prêmio de viagem ao exterior concedido pela Academia Imperial de Belas Artes (AIBAa), e é como pensionista (hoje em dia diríamos bolsista) daquela instituição que o artista viaja para Paris, em 1879. Lá ele completa sua formação nas prestigiadas Academia Julian e Escola Nacional Superior de Belas Artes de Paris. Seus principais mestres nesse período são os pintores Alexandre Cabanel e Pierre Puvis de Chavannes. Deles, o pintor brasileiro incorpora o desenho minucioso e o uso de cores discretas.

Em 1888, um ano após voltar ao Brasil, Amoedo é nomeado professor honorário de pintura histórica na Aiba, onde tem alunos promissores: Eliseu Visconti e Candido Portinari são alguns deles. Além dos quadros de cavalete, Amoedo realizou também várias obras de decoração. No Rio de Janeiro, por exemplo, são de sua autoria os painéis A Memória e A Reflexão, na sala de obras raras da Biblioteca Nacional. Em 1941 o artista falece, aos 83 anos de idade. Parte de seu acervo é doada ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro.

*Priscila Sacchettin é doutoranda em História da Arte na Unicamp.

Mais:

Cartas na pintura (1): sobre Moça lendo uma carta à janela, de Vermeer
Cartas na pintura (2): sobre Senhora escrevendo uma carta e sua criada, de Vermeer
Cartas na pintura (3): sobre Cartas de parentes no Norte falavam da vida melhor de lá, de Jacob Lawrence
Cartas na pintura (4): sobre Séverine, de Louis Welden Hawkins
Cartas na pintura (5): sobre O mercador Georg Gisze, de Hans Holbein, o Jovem
Cartas na pintura (6): sobre Quarto de hotel, de Edward Hopper
Cartas na pintura (7): sobre Vênus, de Mikhail Larionov
Cartas na pintura (8): sobre Betsabé, de Robert Boyvin
Cartas na pintura (9): sobre As jovens, de Francisco de Goya
Cartas na pintura (10)
: sobre Doente, de Gabriele Münter
Cartas na pintura (11): sobre Cartas de amor, de Jean-Honoré Fragonard
Cartas na pintura (12): sobre A morte de Marat, de Jacques-Louis David