A vida é um bocejar infinito

De: Álvares de Azevedo Para: Maria Luísa Silveira da Mota

Em 1848, o poeta paulistano Álvares de Azevedo deixa o Rio de Janeiro, onde morava sua família, e retorna à cidade de nascimento para concluir os estudos na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Aos 17 anos, o jovem não demonstra entusiasmo ao chegar à capital, que, naqueles tempos, era habitada por pouco menos de 15 mil pessoas. Em carta à sua mãe, Maria Luísa Silveira da Mota Azevedo, o autor de Lira dos vinte anos (1853) traça um perfil diferente da metrópole que conhecemos hoje.

São Paulo, 12 junho de 1849

Tenho a vista a sua de 3 de corrente que com muito prazer recebi.

Enquanto no Rio reluzem esses bailes a mil e uma noites, com toda a sua mania de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cínico baile da concórdia Paulistana.

Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo […]

Durante os anos 1930, os principais artistas brasileiros voltaram seus olhos para as injustiças sociais do país. A amizade entre Graciliano Ramos e Candido Portinari, por exemplo, foi marcada pelo tema, numa parceria intelectual refletida em robusta correspondência epistolar. Na carta a seguir, o autor de “Vidas secas” (1938) propõe uma reflexão sobre o papel da dor no fazer artístico. A obra de Graciliano Ramos estará presente na próxima edição do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles, que começa no mês de julho próximo.

Rio, 18 de Fevereiro de 1946

Do site graciliano.com.br[1]

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da […]

Sua mãe, Clarice

De: Clarice Lispector Para: Pedro Gurgel Valente

Dois anos antes de morrer, Clarice Lispector escreve uma carta afetuosa ao filho mais velho, Pedro Gurgel Valente, sobre o bem-estar que sentia ao pintar. Aqui, reúnem-se duas facetas de Clarice: a maternidade e o fascínio pelas artes plásticas. Dentre os vinte quadros pintados pela escritora, dois fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estarão, em breve, na exposição dedicada a Clarice no ano de seu centenário.

Rio, 25 de julho de 1975

Pedro, meu querido filho, como vai?

Lembre-se ainda que eu às vezes pintava quadros, e você também? Pois agora comprei tintas de acrílico, pincéis e telas – é uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever.

 

            Sua mãe


 

Neste vídeo de 2014, Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, […]

Entre 1975 e 1977, Lygia Fagundes Telles iniciou um movimento para criar o Museu da Literatura Brasileira, uma espécie de irmão gêmeo paulista do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, aberto por Plínio Doyle em 1972 na Fundação Casa de Rui Barbosa. Segundo a autora, o Museu da Literatura Brasileira, com o apoio do Centro Federal de Cultura, seria um “centro de estudos e pesquisas grande o bastante para ser realmente representativo da nossa literatura”. Nesta carta ao amigo Erico Verissimo, Lygia convoca o escritor gaúcho a doar fotografias e manuscritos e a divulgar a iniciativa. Com ajuda de José Geraldo Nogueira Moutinho, foram reunidos em torno de 230 itens, mas o Museu não se tornou realidade e o material coletado, de pouca ou nenhuma divulgação até agora, está sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

[São Paulo], 12 de setembro de 1975

Erico, meu querido:

Ainda no belíssimo cartão que você me deu aqui estou para cobrar-lhe o material para nosso Museu da Literatura Brasileira: fotos (antigas, modernas, você com Mafalda, com os filhos, com os amigos) textos, manuscritos, caricaturas, cartas que escritores famosos lhe escreveram – enfim, todas as […]

A primeira viagem de Mário de Andrade ao Rio de Janeiro foi no Carnaval de 1923. Na cidade, ele aproveitaria apenas dois dias, se recolhendo, depois, na tranquila Petrópolis, onde combinara de encontrar Manuel Bandeira. Se, nos primeiros dez minutos, a festa de Momo causaria um “choque terrível” ao poeta paulista, logo esqueceria todos os compromissos firmados tanto com parentes quanto com o próprio Bandeira, e Mário se refestelaria na folia durante todos os dias. A “aventura curiosíssima” na cidade foi registrada em verso no poema “Carnaval carioca”, publicado em 1927.

[São Paulo, fevereiro de 1923]

Querido Manuel,

Não me condenes antes que me explique.

Depois perdoarás.

Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda-feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis.  Voltarei à noite para ver […]