Assim como muitos de sua geração, Paulo Mendes Campos deixou seu estado natal, Minas Gerais, para se fixar no Rio de Janeiro. Em meados de 1945, sob o impacto da nova cidade, ele escreveu esta carta ao amigo que ficara em Belo Horizonte. Os dois, somados a Hélio Pellegrino e Fernando Sabino, comporiam o grupo que Otto batizou de “Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”.

[Rio de Janeiro, agosto de 1945]

De onde venho, meu velho, para onde vou? Mas nenhum traço de comoção dramatiza minha voz. Estou calmo, lúcido, fumando. Nem careço rigorosamente de escrever uma carta: ninguém me chama, ninguém me espera, ninguém me denuncia. Iluminando melhor, não é o sentimento para que me sevicia, mas os sentimentos intransitivos, os inumeráveis sentimentos que recolho, […]

Nesta carta, Noel se dirige ao seu médico, Edgar Graça Mello, que em 1934 lhe diagnosticou uma lesão no pulmão direito e “qualquer coisa” querendo começar no esquerdo. Em janeiro de 1935, o paciente viajou para a casa de uma tia, Carmem, irmã de sua mãe, em Belo Horizonte, onde, em lugar de sossego, caiu na boemia com os artistas da Rádio Mineira. Décadas depois, o compositor João Nogueira musicou a carta, gravando-a em seu disco Vida boêmia, de 1978, e acrescentando mais uma estrofe: “Muito obrigado ao Noel/ É grande a satisfação/ Ter um parceiro no céu/ Quem fala aqui é o João”.

[Belo Horizonte, 27 de janeiro de 1935]

Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar,

Um abraço

Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu precioso tempo, é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que eu mereço.

Assim sendo, vou passar a resumir as notícias que se referem à marcha do meu tratamento.

E, […]

Carta aos amigos de São Paulo

De: Castro Alves Para: Amigos de São Paulo

Apesar dos cuidados que lhe dispensaram os amigos paulistas, Castro Alves precisou viajar ao Rio de Janeiro para se tratar de uma ferida no pé causada por um tiro de espingarda durante uma caçada nos campos do bairro do Brás, em São Paulo. Na capital carioca, foi hóspede do amigo Luiz Cornélio dos Santos, mas, sem sucesso no tratamento, teria o pé amputado em junho de 1869.

Rio de Janeiro, 25 de maio de 1869

Eis-me na corte há quatro dias, eu, pobre in­válido, que não podia chegar até a sala!… Que força, que mola estranha deu vida ao cadáver? Foi Deus. O Deus de Lázaro sustentou-me nesse instante em que a amizade acompanhou-me.

[…][1]

E custou-me bem aquele último abraço a bordo, à tarde, quando o vento […]

Em 11 de novembro de 1868, a espingarda que Castro Alves usava durante uma caçada nos campos do bairro do Brás, em São Paulo, disparou, atingindo-lhe o calcanhar direito. O poeta viajaria ao Rio de Janeiro para se tratar, acolhido pelo amigo Luiz Cornélio dos Santos, a quem pede socorro nesta carta.

[São Paulo, 1º de dezembro de 1868]

Meu caro Luiz,[1]

Estou, há vinte dias, de cama, de um tiro que dei em mim, por acaso. Este desastre caiu-me na pior ocasião. Bem vês que eu não podia escrever, e nem mandar por outro es­crever para minha família isto, e só alguns dias depois é que tive portador seguro que foi […]

Perseguido pelo então presidente marechal Floriano Peixoto, que o considerava o mentor intelectual da Revolta da Armada, movimento de oposição ao governo desencadeado no Rio de Janeiro em setembro daquele ano, Rui Barbosa embarca clandestinamente no Madalena, navio que o levaria ao exílio em Buenos Aires. Com duas semanas de viagem, escreve esta carta à mulher, com quem estava casado havia sete anos.

Buenos Aires, bordo do Madalena, 19 de setembro [de 18]93

Minha adorada Maria Augusta,

Decididamente, minha Cota, não se morre de dor, desde que eu não morri ainda. Mas morrerei, ou enlouquecerei, se isto continua, e eu não posso ir reunir-me contigo, ou tu comigo. Não sei, não sei como ainda vivo! Mas esta vida que eu levo é atroz, é desesperadora: mata-me a fogo […]