Até onde pode ir o processo de criação de uma obra? Com Murilo Rubião, a gestação de um conto pode durar pelo menos 15 anos – é o que mostra esta carta a Otto Lara Resende, com quem comenta “Teleco, o coelhinho”, incluído no livro Os dragões e outros contos, de 1965. 

Belo Horizonte, 30 de março de 1950

Velho Otto,

Não pense em possíveis ingratidões, que elas não existem. Toda mudança envolve ambientação nova, novos compromissos. E sendo retorno, temos que reatar velhos amores, reajustar nossa máquina bélica para outros empreendi­mentos sentimentais.

Não foi o que fiz. Deixei-me embalar por essa inefável monotonia belorizontina, que pode irritar os menos avisados, mas que tanto […]

Poeta sexagenário em 1962, Carlos Drummond de Andrade publicou nesse ano o livro Lição de coisas, no qual pratica “a violação e a desintegração da palavra”, segundo escreveu o próprio poeta. Na obra, incluiu o soneto “Carta”, endereçado à mãe, Julieta Augusta Drummond de Andrade, com quem nunca deixou de se corresponder desde que veio morar no Rio de Janeiro em 1934. Também a ela dedicou o poema “Para sempre”, publicado nesse mesmo livro.

S.l., s.d.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde […]

Casado com a pianista Jocy de Oliveira por mais de uma década, o maestro Eleazar de Carvalho escreve-lhe esta última carta antes do divórcio. Nela, segundo Jocy em seu livro Diálogo com cartas, ele “deixa transparecer um lado poético e emotivo por trás de sua crosta enrijecida pela vida difícil que teve”.

S.l., 2 de outubro de 1971

Jocy, my love,

É um sábado à tarde. 2-10-71. Estou sozinho. O piano está mudo e coberto com uma rede. Uma rede nova, trazida do Ceará, de onde cheguei ontem, à noite, carre­gado de troféus. Troféus que o intervalo temporal de uma curta e longa, ao mesmo tempo, existência vem trazendo. Talvez fossem mais se […]

Moradora de Berna, na Suíça, desde abril de 1946, quando acompanhou o marido, Maury Gurgel Valente, em função diplomática, Clarice Lispector teve, dentre seus correspondentes assíduos, o amigo Lúcio Cardoso, por quem nutria profunda admiração. Como ele se demorasse na resposta às suas cartas, ela lhe enviou esta, em que não esconde seu desapontamento.  

Berna, 31 [de] outubro [de] 1946

Alô, Lúcio,

isto é apenas pra perguntar como você vai.

O quê? ah, estou bem, obrigada.

Sim, com frio também, obrigada.

O quê? ah, sim, mesmo no outono já se tem um grau abaixo de zero.

Que eu vou morrer de frio? Ah, sim, você talvez tenha razão. Que você tem me escrito muito? sim, […]

Pai do Fradim e da Graúna, dentre outros personagens clássicos do cartum brasileiro, Henfil escreveu as “Cartas da mãe”, publicadas na revista Istoé, depois de passar uma temporada em Nova York em busca de tratamento para a hemofilia. O tom divertido e irônico com que o cartunista conseguiu driblar a censura e criticar o regime militar as tornou conhecidas e inspirou o média-metragem homônimo lançado em 2003, que teve narração do ator e diretor Antônio Abujamra.

Natal, 23 de novembro de 1977

Dona Maria,

Vai chegando o Natal e começa a dar uma nostalgia fininha, doída na gente. Isto é normal, mãe? A senhora que já cursou oito filhos poderia me dizer se esta dor tem chá que cura? Erva cidreira é bom? Ou foi porque andei toman­do friage depois de beber quente?

A senhora sempre disse […]