Diplomata brasileiro que representou o Brasil com raro fervor, Ribeiro Couto não dissociou a carrière, como gostava de se referir à sua carreira diplomática, da vida pessoal. Nesta carta a um de seus colaboradores, e com o bom humor de sempre, lê-se o testemunho de um espírito tão apaixonado quanto profissional.

Belgrado, 22 de agosto de 1954.

Meu caro Vasco,

Estou escrevendo às quatro da madrugada. Sua carta de doze do corrente me deu grande prazer. Há muito que não tinha notícias suas, mas era evidente que você deveria estar atrapalhado com os habituais incômodos da instalação.

Gostei de saber das suas próximas gravações com o grande Mignone.

Tenho trocado cartas com […]

A atuação de Darcy Ribeiro, ao lado de Anísio Teixeira, nos rumos da educação no Brasil não os deixou impunes durante a ditadura militar. Alguns meses depois do golpe, Darcy, ainda muito marcado pela sensação de fracasso de que foi tomada toda a esquerda, e ainda incerto em relação aos desdobramentos da situação política, compartilha sua apreensão com o amigo. O momento não lhe permitia pensar em um sistema que, na verdade, duraria 21 anos.

[Montevidéu], 11 de novembro de 1964

Meu querido mestre Anísio,

Só agora ouso escrever-lhe pelo temor que tinha de ainda mais comprometê-lo. Uma das coisas que mais me doeu de tudo o que passou foi ver repetir-se, pela segunda vez, sobre sua cabeça, a onda de despotismo. E, também, o pouco que conversávamos nos últimos meses em que eu vivia naquela […]

As dores do exílio são comentadas nesta carta de Augusto Boal ao também ator e diretor de teatro Gianfrancesco Guarnieri, que ficara no Brasil enfrentando, do lado de dentro, a ditadura militar que se instalou no país de 1964 a 1985.

Paris, 14 [de] fevereiro [de] 1979

Foi no meio da noite um telefonema que devia ter sido ao meio-dia, com o sol a pino; foi no meio do sono um telefonema, que devia ter sido em horas de lucidez; foi com os olhos meio fechados, quando deviam estar arregalados; foi com os ouvidos meio surdos do barulho dos loubards em motocicletas no Boulevard Beaumarchais, aqui perto, lá embaixo, que eu ouvi a tua voz lá de longe, inesperada, bem-vinda.

Não é numerosa a correspondência entre Monteiro Lobato e Artur Coelho, que foi tradutor da Paramount. No entanto, as oito cartas que cobrem os anos de 1936 a 1948 fazem revelações como esta, em que o escritor e editor avalia os efeitos da perda de liberdade durante o Estado Novo, comandado por Getúlio Vargas.

S.l., [1938]

Coelho,

Desconfio que não te chegou uma minha, pois que na de 15 de junho hoje recebida fazes perguntas já respondidas. Nela eu te dizia que foste com muita sede ao pote; que a linha da UJB[1] não comporta senão águas paradas e em dosezinhas breves; são jornalecos avaros de espaço. Nem comporta […]

Na noite da votação das Diretas Já, movimento civil que exigia eleições presidenciais diretas no Brasil, a atriz Fernanda Montenegro escrevia ao amigo e dramaturgo Augusto Boal, com quem manteve constante correspondência durante o período em que ele esteve no exílio. Antes de enviá-la, Fernanda já podia dar a má notícia do resultado, como se pode ouvir na leitura em vídeo ao final da carta.[1]

Rio [de Janeiro], 25 de abril de 1984

Querido Boal,

Acabo de receber sua carta, dizendo que você chega breve.

Hoje, no Brasil, vivemos uma noite especial, pois estão sendo votadas as Diretas no Congresso, e tudo pode acontecer. Multidões estão de plantão em todo o país. A votação vai pela noite.

Boal, tudo mudou nos planos do Theatro Municipal. Tatiana saiu. O […]