No Dossiê Mamãe, Coragem!, publicamos trechos de três cartas de Torquato Neto que dialogam com as dificuldades do trabalho artístico no Brasil. Na primeira, destinada ao artista plástico Hélio Oiticica, o poeta descreve as “transas” para o lançamento da Navilouca (1974), revista em número único idealizada ao lado de Waly Salomão. Na mesma carta, manifesta o seu rompimento com Glauber Rocha e o Cinema Novo. Já na segunda missiva, para o mesmo destinatário, Torquato comenta sobre uma viagem a Teresina, sua cidade-natal, eternizada nos versos da canção “Mamãe, coragem”. A carta revela que o autor encontrava em Teresina a ociosidade necessária ao fazer literário. A trinca epistolar se completa com a carta ao jornalista Almir Muniz em que Torquato se opõe à possibilidade de greve no jornal Última Hora. O Dossiê Mamãe, Coragem! traz a ambiência dos anos 1970 com as publicações de revistas marginais, como O Verbo Encantado, Presença e Flor do Mal, e afirma a ideia de um artista que desafinava o coro dos contentes.

Navilouca: uma revista como o Rei Momo

Rio [de Janeiro], 10 de maio de 1972

Hélio, querido:

Salve.

Acho que não apenas eu não tenho escrito muito: pergunto a Waly e a todo mundo e parece que ninguém tem falado: deve ser falta de assunto: pelo menos o meu caso. Desde o carnaval não tenho […]

Em 17 de junho de 1962, a seleção brasileira conquistou o bicampeonato mundial, após derrotar a Tchecoslováquia por 3 a 1, no Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Dois dias depois, Antônio Maria publicou, com exclusividade, em sua coluna no periódico O Jornal, uma carta de Vinicius de Moraes dirigida ao cronista. Na missiva, o poeta fez mais do que uma análise futebolística aguçada: pensando sobre o Brasil, discorreu sobre a frase “Nós somos um país de pessoas”, dita por Antônio Maria, cronista que completaria cem anos em 2021. As homenagens serão conduzidas pelo Portal da Crônica Brasileira.

Rio de Janeiro, 19 de junho de 1962

Olha, meu Maria, sofrimento pior do que o jogo contra a Tchecoslováquia, só mesmo sofrimento de amor ­­– e, assim mesmo, não sei não… Quando se ama uma mulher e ela, em geral, com toda razão, briga com a gente e quer se separar, e toda essa coisa, fica-se desarvorado, tomam-se pileques transmontanos, briga-se na […]

No ano em que seria instaurado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o Teatro de Arena estreava a Primeira Feira Paulista de Opinião, um espetáculo composto por seis peças escritas pelos mais importantes dramaturgos brasileiros à época, como Augusto Boal e Plínio Marcos. Às vésperas da estreia, a Censura ainda não havia liberado a montagem, o que motiva esta carta-manifesto de Cacilda Becker ao então diretor-geral da Polícia Federal do Brasil, general José Bretas Cupertino. O grupo teatral foi notificado por Brasília, que exigiu o corte de cerca de 80 trechos. Como um ato de “desobediência civil” à ditadura, os artistas decidem executar a Feira Paulista de Opinião na íntegra.

Ilmo. Senhor
General José Bretas Cupertino
MD Chefe do Departamento de Polícia Federal

O Teatro de Arena de São Paulo sempre se caracterizou, nestes últimos quinze anos, pelo constante trabalho de pesquisa em todos os setores da arte teatral. Foram notáveis suas contribuições no terreno da interpretação, da encenação e sobretudo da dramaturgia […]

Em 1969, o ex-jogador, cronista esportivo e militante político João Saldanha foi convidado para ser treinador da Seleção Brasileira. A campanha nas eliminatórias para a Copa não poderia ter sido melhor: seis jogos e seis vitórias. Entretanto, a presença de João Sem Medo, como ficou conhecido, em cargo tão importante não interessava ao general Emílio Garrastazu Médici, terceiro comandante da ditadura militar. Saldanha relatou episódios que o levariam a deixar a função em uma carta aberta publicada na revista Placar, da qual reproduzimos alguns trechos.

[Rio de Janeiro], 27 de março de 1970

Um dia o dr. Antônio do Passo[1] apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:

– Isso […]

Euclides da Cunha e Vicente de Carvalho tinham mais em comum do que o fardão da Academia Brasileira de Letras. É do autor de Os Sertões, também amigo pessoal do poeta parnasiano, o prefácio de Poemas e canções, livro que abriria as portas da Academia Brasileira de Letras para Vicente, em 1909.  Nesta carta, o parnasiano revela o personagem heroico do poema “Fugindo ao cativeiro”, no qual Manuel Bandeira identificou “força épica”, e é incluído no livro.

São Paulo, 31 de agosto de 1908

Euclides,

Enfim posso escrever-te, e mandar-te, dos Poemas e canções, os versos que não fazem parte da Rosa, rosa de amor… Quer dizer: o livro compor-se-á dessas 160 páginas de versos, que vão, e da Rosa, rosa de amor

Como te mandei dizer, o prefácio irá com numeração romana, e em tipo diferente. Uma parte […]