Lygia Fagundes Telles cursava ainda a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco quando começou a trabalhar como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo. Embora estudasse para ser advogada, como o pai, aos 20 anos estava certa de que sua vocação era a literatura. Esta carta, escrita para Erico Verissimo, de quem era amiga, testemunha a insatisfação com o cargo público e a criação improvisada de um pequeno e delicioso conto.

São Paulo, 3 de julho de 1943

Erico Verissimo, estou numa sala onde trabalho, isto é, onde devo deixar todos os dias num livro, fincado como um marco, o vestígio da minha passagem. Em outros termos, funcionária pública, a pior funcionária pública que existe no mundo. Leio romances enfurnados na gaveta, tenho o ar dolorido para que não me deem serviço e, […]

Colaborador dinâmico em periódicos na América do Sul, junto com sua mulher, a intelectual Lidia Besouchet, Newton Freitas divulgou a literatura brasileira durante seu exílio, sobretudo em Buenos Aires, no período da ditadura militar. Iniciada em 1940, a amizade entre Mário de Andrade e Newton, apesar de curta, foi intensa. Mário via em Newton “o sul-americano sem sumário, que vive necessariamente em sul-americanismo”. Para este, o autor de Macunaíma foio mais belo episódio” de sua vida, porque reunia e resumia as figuras de mestre, herói e irmão mais velho.

São Paulo, 16 de abril de 1944

Meu caro Newton,

Esta carta vai lhe causar algum desgosto, se prepare. Estou respondendo à última sua, que tem tanto assunto que vou responder rápido um por um […].[1] Eu estava no hospital, e aliás mesmo que estivesse presente nada poderia fazer, está claro. Por coincidência, no dia em que o Petit chegou, […]

Em 1956 é publicado o romance Grande sertão: veredas, considerado uma das três epopeias em língua portuguesa, depois de Os lusíadas e Os sertões. Atualizada com os lançamentos recentes no Brasil, Clarice Lispector, na época vivendo nos Estados Unidos com a família, expressa seu encantamento com a leitura do livro recém-publicado de Guimarães Rosa ao amigo mineiro Fernando Sabino.

Fernando,

Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida […]

Morador de Londres desde 1968, o jornalista Ivan Lessa nunca se desligou dos amigos brasileiros. Na capital londrina, onde passara a colaborar na British Broadcasting Corporation, a BBC de Londres, não deixava de receber cartas como esta, de Millôr Fernandes, que, em estilo consagrado, dá notícias do que acontecia no Brasil durante o truculento governo Médici.

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1970

Meu amor I! Vão, lê essa:

Eu sei que a hora não está para trocadilhos mas, que fazer, como diziam Lenine e Ignazio Silone?[1] Com Francis preso eu fico com a responsabilidade da cultura, com o Tarso preso eu fico também com a irresponsabilidade da incultura, com o Fortuna[2] preso sou […]

Do exílio mexicano, entre as saudades do Brasil e a apreensão com relação à saúde, Herbert de Souza, o Betinho, escreve a Otto Lara Resende, que acabara de tomar posse como membro da Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano em que escreve ao amigo, Betinho é anistiado pelo governo do general Ernesto Geisel e protagoniza uma chegada emocionante no aeroporto do Galeão, abraçado pelos amigos e pela família.

México, 20 de outubro de 1979

Ottos (desculpe o plágio),

Tenho inveja de você, que é imortal. Gostaria de ter esta condição para voltar ao Brasil, e a razão é muito simples. Depois que voltei ao Brasil por quinze dias fiquei com um medo danado de morrer no Brasil. Creio que nestes últimos 43 anos de hemofílico não me caracterizei exatamente […]