Em 1946, o escritor mineiro João Guimarães Rosa lançava Sagarana, livro de contos que introduziu a temática regionalista universalista, pela qual se notabilizaria. A chegada ao hibridismo entre saga, radical germânico que significa lenda, e rana, palavra de origem tupi que expressa semelhança, levou tempo. A primeira versão da obra data de 1938, quando o escritor, sob o pseudônimo de Viator, inscreveu o livro então intitulado Contos no concurso Humberto de Campos, promovido pela livraria José Olympio. Desbancado por Maria Perigosa, de Luís Jardim, o livro terminou na segunda colocação. Contudo, as doze histórias ambientadas no sertão de Minas Gerais deram corpo a um clássico da literatura brasileira. Em carta ao jornalista João Condé, autor da coluna Arquivos implacáveis, Rosa explicou detalhadamente o processo criativo de Sagarana.

[Sem data]

Prezado João Condé,

Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o […]

Em 1950, a escritora cearense Rachel de Queiroz publicou nas páginas de O Cruzeiro quarenta capítulos de O galo de ouro, romance que seria editado em livro apenas em 1985. Único romance da escritora ambientado fora do Ceará, O galo de ouro teve sucesso entre o público leitor da época, revelando o cotidiano da Ilha do Governador, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Nesta carta, o poeta Carlos Drummond de Andrade reage à trama, saudando o estilo realista adotado pela autora.

Rio [de janeiro], 8 de dezembro de 1985

Querida Rachel:

Não quero terminar o ano sem limpar-me de um pecado de omissão cometido contra O galo de ouro. O volume ficou perdido numa pilha de outros que se acumulava a um canto do escritório – esse escritório mal organizado de um sujeito que se afirma ser organizadíssimo – e só há pouco o […]

Após ter o mandato de deputado federal cassado pelo AI-5, em 1968, o jornalista e político carioca Márcio Moreira Alves exilou-se no Chile, onde viveu durante dois anos. A saudade do Brasil e, principalmente, dos amigos está refletida nesta carta, enviada a Rubem Braga. Além de lembrar a amizade com o cronista Paulo Mendes Campos, Moreira Alves documenta as paisagens chilenas, com descrições típicas do realismo mágico latino-americano.

Rubem velho,

Achei que a única lembrança digna de quem já esvaziou oceanos de garrafas era um navio aprisionado. O Neruda tenta convencer-nos que esses navios são feitos à noite, por pequenos duendes carpinteiros. A verdade é menos mágica. Abre-se a garrafa com uma faca de diamante, coloca-se dentro o navio e fecha-se tudo com […]

Durante os anos 1930, os principais artistas brasileiros voltaram seus olhos para as injustiças sociais do país. A amizade entre Graciliano Ramos e Candido Portinari, por exemplo, foi marcada pelo tema, numa parceria intelectual refletida em robusta correspondência epistolar. Na carta a seguir, o autor de “Vidas secas” (1938) propõe uma reflexão sobre o papel da dor no fazer artístico. A obra de Graciliano Ramos estará presente na próxima edição do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles, que começa no mês de julho próximo.

Rio, 18 de Fevereiro de 1946

Do site graciliano.com.br[1]

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da […]

Sua mãe, Clarice

De: Clarice Lispector Para: Pedro Gurgel Valente

Dois anos antes de morrer, Clarice Lispector escreve uma carta afetuosa ao filho mais velho, Pedro Gurgel Valente, sobre o bem-estar que sentia ao pintar. Aqui, reúnem-se duas facetas de Clarice: a maternidade e o fascínio pelas artes plásticas. Dentre os vinte quadros pintados pela escritora, dois fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estarão, em breve, na exposição dedicada a Clarice no ano de seu centenário.

Rio, 25 de julho de 1975

Pedro, meu querido filho, como vai?

Lembre-se ainda que eu às vezes pintava quadros, e você também? Pois agora comprei tintas de acrílico, pincéis e telas – é uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever.

 

            Sua mãe


 

Neste vídeo de 2014, Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, […]