Detalhes da Carta

Colaborador dinâmico em periódicos na América do Sul, junto com sua mulher, a intelectual Lidia Besouchet, Newton Freitas divulgou a literatura brasileira durante seu exílio, sobretudo em Buenos Aires, no período da ditadura militar. Iniciada em 1940, a amizade entre Mário de Andrade e Newton, apesar de curta, foi intensa. Mário via em Newton “o sul-americano sem sumário, que vive necessariamente em sul-americanismo”. Para este, o autor de Macunaíma foio mais belo episódio” de sua vida, porque reunia e resumia as figuras de mestre, herói e irmão mais velho.

São Paulo, 16 de abril de 1944

Meu caro Newton,

Esta carta vai lhe causar algum desgosto, se prepare. Estou respondendo à última sua, que tem tanto assunto que vou responder rápido um por um […].[1] Eu estava no hospital, e aliás mesmo que estivesse presente nada poderia fazer, está claro. Por coincidência, no dia em que o Petit chegou, eu entrava no Hospital Sta. Cecília pra fazer a extirpação das amídalas que estavam infectadas, sofri bem. Basta lhe dizer que já faz quase trinta dias e a garganta não se normalizou de todo. Mas só me chateia, já não faz sofrer. Com isso, quatro dias de hospital e mais de semana sem falar não pude ver o Petit sequer. Mas meus amigos, dois estiveram com ele por mim, e fizeram o que era possível para obter a tradução e principalmente os originais de Carybé, que me deixaram desesperado.[2] Mas foi impossível, e afinal o chefe da censura comunicou que não podendo decidir por si o caso dum livro publicado em 1928, antes da revolução de 30, e é apenas um romance poético, mandara tudo pro Rio, pra censura de lá! Pois nada se resolveu até agora, não sei onde anda tudo, e já entregamos o caso à Sociedade dos Escritores Brasileiros, com sede no Rio, pra ver se consegue ao menos a repatriação pra Buenos Aires de tudo. Estou literalmente desesperado acredite, principalmente por causa dos desenhos do Carybé, assim jogados de Ceca em Meca.[3] Mas também pra que você mandou eles! Bastavam umas duas fotos só pra satisfazer a minha natural curiosidade apaixonada por eles. Da tradução naturalmente vocês guardaram cópia e não faz mal se perder, mas os desenhos! Se conseguir alguma coisa e a salvação dos desenhos lhe telegrafarei.

Acho mesmo melhor pôr “daimônios” a primeira vez entre aspas. Também não existe em português, e naturalizei a palavra grega, como já vi naturalizada em folclore creio que em inglês, porque a palavra “demônio” já sistematizada na terminologia católica, só significa o espírito do mal, ao passo que a palavra originária, “daimônia”, significa mais complexamente os espíritos, em geral propensos ao malefício, mas que podemos apaziguar. Enfim o “espírito” na sua compreensão dos povos primitivos.

Sei sim Quem é quem. Ando até chateado com um norte-americano, que me pediu o que eu sou, mandei, traduziram péssimo, corrigi, tornaram a traduzir cheio de defeitos e acabei não respondendo, que se forniquem e não tenho interesse no meu nome nos Estados Unidos, não sei, mas sempre me pareceu que a minha existência se circunscreve ao Brasil. Pelo menos foi este o destino que penso ser meu e por isto me dei restritamente. Mas pro seu Quem é quem, está claro que responderei e se precisar alguma outra coisa de mim, informes, indicações, me utiliza, que tudo farei de coração aberto. Quanto à sua vinda, acho que é impossível pra mim ir a Porto Alegre. Antes de mais nada é um caso psicológico detestável, eu não sei viajar, não gosto de viajar, perco noventa por cento de mim, sobretudo liberdade de pensar, elogio tudo, fico amável sem gosto, e me sinto besta e aviltado. Mas lhe peço que venha a São Paulo sim, porque eu sei que seria um gosto imenso dar um abraço real em você e ficarmos conversandinho sem tempo. Não se engane: nada daquele delírio de riso e felicidade epidérmica das nossas farras do Rio. Mas conversandinho, é a palavra, sem brilho mas numa intensidade melhor, engrandecidos de silêncios. Venha, sim.

A monografia sobre o Portinari, ficou ótimo assim no vago. Uns tempos me desgostei do Portinari, foi mesmo um desgosto profundo que não falei a ninguém a razão toda, só um pouco a você e a um amigo meu daqui. Mas a chaga já passou e reprincipiei a compreender, naquele meu principio de toda a vida, de que os artistas verdades são preliminarmente uns desgraçados, e por isso com uma capacidade enorme pra indignidade. A chaga passou, a marca ficou e em mim fica pra sempre, é uma pequenez minha. Mas faço como as mulheres, passo creme bem branquinho por cima da marca, maquilho a tal e assim ainda dá pra viver, e amar e compreender os grandes como o nosso Portinari. E ele além de grande, é realmente um homem bom, o que eu prefiro. E também sofre muito – o que eu prefiro ainda mais, o sofrimento dignifica quase sempre. Só não dignifica quando nasce espúrio, dos nossos interesses pessoais. Mas eu creio que até o sofrimento nascido dos delírios da vaidade, dignifica. E é muito o caso do meu Portinari. Por isso a coisa fica assim como está. No momento não posso pensar sequer em escrever a monografia, estou atolado no vício dos trabalhos de obrigação e no vício dos meus trabalhos de encomenda. Mas quem sabe se nestes três ou quatro meses fico mais desafogado, e posso escrever.

Por enquanto não preciso de comprar coisas aí. É fato, estão vendendo aqui livros de procedência argentina por preços absurdos, mas particularmente, o Paulo Zing, de Leitura, tem trazidos ótimos livros da Argentina e por preços bem razoáveis, até baratos, e me desafogo com ele.

O livro do Freitas Júnior se acabou e desapareceu das livrarias.[4] Vou ver se com a editora consigo um exemplar ainda e lhe mandarei, faço questão que você leia o meu prefácio, porque faz parte da minha estrada de Damasco.

Você está amargado com razão com a perda do seu emprego, mas nisto não posso comentar e você sabe por quê. Quanto à sua amargura com os “amigos” que fazem chacota por você escrever demais, eu nunca ouvi nada, mas acredito que deve ser assim mesmo. Compreendo a sua amargura porque também tenho as minhas. Mas se quer receita pra curar, o único jeito bom mesmo é superar a chacota e conservar os… companheiros. Não perca os companheiros por isso, que um belo dia, no mesmo dia, você surpreende eles se rindo pra você num riso verdadeiro de companhia e de amor. Os homens sempre valem mais do que os instintos dos homens. Se alguém riu, foi por “instinto” de defesa, como qualquer inseto. Mas os homens, além de insetos, têm este coração que sabe palpitar de amor. Toca pra frente companheiro, toca pra frente, amigo.

Fiquei horrorizado com a Lidia[5] prometer se vingar de mim fazendo a minha grafologia. Esse é um dos casos mais tristonhos da minha vida. Sempre tive uma letra grafologicamente linda, era uma delícia quando faziam o estudo dela, como era bonito por dentro, nobre, correto, leal, apaixonado, etc. Mas um dia veio o Departamento de Cultura e fui diretor de qualquer coisa e tive que deixar de ser apenas diretor de mim mesmo. A minha letra aos poucos foi se transtornando, e ficou na irregularidade dolorosa que tem hoje. Surgiram nela os elementos da hipocrisia, da mentira, do disfarce, fatais nas intercomunicações políticas e administrativas. Imagine um homem inventando, por exemplo, casas de cultura proletária, que jogo de falsificações, de hipocrisias, de desvirtuamentos tinha que fazer! Basta lhe dizer que no dia em que saiu o projeto, o então jornal integralista me passou uma bruta descompostura chamando o projeto de “comunista”, ao passo que um comunista camuflado me denunciava ao Governo noutro jornal porque o projeto era “integralistas”! Palavra de honra. E perdi a bonita letra minha. Foi o Departamento de Cultura que roubou minha letra, nem gosto de falar, vêm tantas amarguras…

Lhe mando o meu retrato que mais gosto, mas exijo troca. Gosto mais porque marca no meu rosto os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda, mas de caminhos, de ruas, de praças, como uma cidade. Às vezes, quando espio esse retrato, eu me perdoo e até me vem um vago assomo de chorar. De dó. Porque ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz. Porque de fato desde muito cedo eu atingi a transcendência da felicidade, mas me lembro, desde 1922, a raiva desesperada em que fiquei com a besteira de Graça Aranha, na Estética da vida, confundindo a dor, o sofrimento com a infelicidade. Ao passo que é desse ano mesmo aquele meu verso dizendo que “A própria dor é uma felicidade”.[6] Mas sucedeu o castigo. Essa transubstanciação dos sofrimentos foi tão bem conseguida em mim que, por muitos anos, perto de quinze anos vivi num delírio eufórico de felicidades e de felicidade. As lutas, os insultos, os erros, as dificuldade, as derrotas (a cada derrota, eu dizia alegre: “Um a zero, perdi, vamos principiar outro jogo!”), eram pra mim motivos de tanta, não alegria, mas dinâmica do ser e superação até física, que me esqueci que sofria. Até que tiraram essa fotografia. E fiquei horrorizado de tudo o que eu sofri. Sem saber. O abraço mais fiel pra vocês dois

 

Mário


[1] N.E.: O trecho no documento original foi cortado à tesoura pela ditadura.

[2] N.S.: Carybé traduziu Macunaíma (1928) para o espanhol em 1943 junto com Raul Brié. A edusp publicou em 1979 uma luxuosa edição especial com conjunto de ilustrações que Carybé fez neste mesmo período por ocasião do cinquentenário de Macunaíma.

[3] N.S.: Expressão que significa “percorrer diversos lugares”.

[4] N.S.: Ensaios do nosso tempo, de Otávio de Freitas Júnior, publicado pela Casa do Estudante do Brasil

[5] N.S.: Lídia Besouchet foi importante ensaísta que divulgou a literatura e cultura brasileiras em países da América do Sul durante seu exílio na ditadura militar. Foi casada com Newton Freitas.

[6] N.S.: Mário de Andrade se refere ao poema “Rito do irmão pequeno (vi)”


Correspondência: Mário de Andrade & Newton Freitas, vol. 6. Org. Raúl Antelo. São Paulo: 2017, p. 207.

Os comentários estão desativados.