Foto retirada de Metáfora ou a tristeza virada do avesso, de Catarina Vasconcelos

Ao completar 27 anos, um rapaz escreve uma carta à irmã. No meio disso, um passado anterior à existência dos dois: o pai – cantor de rock ié-ié na Portugal do fim dos anos 1960 que se torna professor universitário de esquerda; a mãe – ex-groupie dos Rolling Stones quando adolescente que, já adulta, estuda sociologia. O encontro amoroso na Revolução dos Cravos e a vida em conjunto em meio à reforma agrária nos anos 1980.

A partir de sua experiência pessoal, que inclui a perda da mãe, vitimada por um câncer, além da imensa crise econômica e social dos anos recentes em Portugal, a diretora Catarina Vasconcelos escava sua história, tendo como ponto de partida o material filmado pelo irmão. Neste curto documentário, não há depoimentos. Para preencher a ausência da mãe, os irmãos partem ao quase silencioso encontro com familiares, reveem fotos e lugares que pertencem à sua lembrança. Em delicada retomada de uma memória íntima entrecortada pela memória de um país, a irmã responde ao irmão, também por carta, na busca de uma metáfora que abarque todas  essas narrativas.

Metáfora ou a tristeza virada do avesso (Portugal/ Reino Unido, 2013, 32’) foi o vencedor do prêmio de melhor curta-metragem documentário no Festival Cinéma du Réel (Paris) em 2014, momentos antes das comemorações de 40 anos dos acontecimentos de abril de 1974.

Leia abaixo a transcrição da carta escrita pelo irmão:

Querida Catarina,

Ando a adiar escrever-te esta carta. Ando a adiar porque nem se quer sei bem o que tenho para te dizer… e quando chego ao momento de escrever, nenhuma forma de começar me parece a melhor.

Queria dizer-te que entrei para engenharia. É bom, mas no outro dia estava a estudar álgebra com o pai e disse “estou farto disto! Não quero saber matemática para nada!”, e o pai disse “Tens de saber. A matemática está em tudo”.
 “Não, não pode ser”, disse eu em pânico.
 Pensar que a matemática está impregnada no universo é pior do que a memória das aulas de coro com a Teresita, a professora filipina, que nos fazia cantar o Réquiem de Fauré quando tínhamos 10 anos.

Bom, o que te quero dizer é que estou a tentar “pegar no touro pelos cornos”, como a mãe dizia.

Escrevo-te de Lisboa, onde o ministro da Saúde pede às pessoas para não ficarem doentes para ajudarem o Orçamento de Estado. Onde as manifestações e o “Povo unido jamais será vencido” andam a tomar conta das ruas outra vez. Escrevo-te em novembro. Escrevo-te no outono. Escrevo-te uma semana antes de fazer nove anos da morte da mãe.

Lembrei-me dela por causa do outono, que este ano se vestiu de vermelho, amarelo, castanho e verde escuro. As cores com que ela se vestia. Lembras-te?

Tenho filmado o outono pelos olhos do tempo dela. Do tempo do antes. Tenho filmado as folhas e as árvores. Estou a tentar guardá-lo tal como aquela caixa chinesa, que descobrimos durante este verão, guardou o cheiro da mãe durante estes anos todos.

Quando a mãe morreu fizemos obras em casa: tiramos a carpete onde aprendemos a andar, arrancamos os azulejos estilo anos 1970 da cozinha onde fazíamos bolos de chocolate nos domingos de chuva, deitamos fora o sofá castanho de pele onde a mãe se deitava a ler e onde nós andávamos à porrada. Nós andávamos sempre à porrada.

Demos a roupa da mãe: lembro-me que uma vez vi a Rositsa, a porteira búlgara, com a t-shirt que a mãe costumava levar para a praia. A Rositsa regava as plantas do jardim com a t-shirt marroquina. E eu fiquei feliz por aquela t-shirt estar a apanhar sol e a regar plantas.

Lembro-me dela. Lembro-me da mania dela pelas revoluções e pelos cravos vermelhos. E lembro-me de um dia ela te dizer “Temos de celebrar para não nos esquecermos, Catarina”.
 “Não nos esquecermos de quê, mãe?”,
 “Da sorte que temos em sermos livres e de podermos ser aquilo que queremos, sem termos medo de ser aquilo que queremos”. 
“Ó, mãe, mas o que é que isso significa?”,
 “Significa que, por exemplo, se quisesses beber Coca-Cola antes do 25 de Abril não podias!”,
 “Mas foi isso que vocês ganharam com o 25 de Abril? Poderem beber Coca-Cola?”, “Não é vocês! Somos nós! Olha, um dia quando fores mais velha nós falamos sobre isso…”, 
“Olha avisa-me só quando isso é, ok?”.
 Nunca aconteceu porque a mãe morreu quando eu tinha 17 e tu tinhas 15 e nessa altura ainda não éramos mais velhos.
 Quero voltar atrás, Catarina. Quero ir atrás onde não havia cancro, onde nós nem sequer existíamos, aquele tempo de que ela falava como se fosse a Janis Joplin, ao tempo das t-shirts tingidas, dos lenços na cabeça, ao tempo em que eles andavam nus pela praia do Meco, ao tempo das revoluções dentro das pessoas, que depois se tornaram revoluções para fora das pessoas.

Às vezes, quando olho para as coisas, ainda as vejo pela metade. Ainda as sinto como se andasse cortado ao meio.

Tenho saudades tuas, tal como Lisboa.

Beijinhos,

Nuno

*Bárbara Rangel é curadora assistente do Cinema do Instituto Moreira Salles.

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