Cena de O edifício dos chilenos.

O exílio é, por natureza, tema que exige cartas, e não seria menor essa demanda no período da ditadura do general Pinochet, que subjugaria o povo chileno por 17 anos após a queda do presidente socialista Salvador Allende, em 1973.

Realizado por Macarena Aguiló, o documentário O prédio dos chilenos (El edificio de los chilenos, Chile, Cuba, França e Holanda, 2010, 110 min) retoma a infância da diretora, pontuada pela troca de cartas com sua mãe. Filha de militantes políticos de extrema-esquerda, suas experiências nas décadas de 1970 e 1980 incluem o sequestro de que foi vítima por parte das forças armadas chilenas com objetivo de forçar a rendição de seu pai, além da mudança para a França a fim de se juntar à mãe já exilada. Macarena incluiria ainda na sua biografia a posterior participação no projeto Lares (Proyecto Hogares, em espanhol), tema principal do filme.

No início dos anos 1980, a mãe de Aguiló decide retornar ao Chile para combater o regime militar de Augusto Pinochet. Era prudente que filhos de exilados não voltassem com os pais; assim surgiu, inicialmente na Europa, o projeto Lares, cujo propósito era reunir pais sociais para cuidar das crianças de exilados. Além disso, o Lares buscava proporcionar uma vivência comunitária, em concordância com os valores políticos dos militantes. O projeto reuniu cerca de 60 crianças e 20 pais sociais, que se estabeleceram primeiro na Bélgica, depois em Cuba, onde, em Havana, moraram no mesmo edifício, conhecido como “o prédio dos chilenos”, que dá título ao documentário.

Com a distância, e sobretudo com a clandestinidade, as notícias enviadas pelos pais eram irregulares e, muitas vezes, as cartas tornavam-se longuíssimas, para compensar sua escassez. Às vezes eram microfilmadas e escondidas para chegarem a seus destinatários; os nomes de filhos e pais podiam ser falsos, trocados por precaução. Mas estas não eram as únicas implicações práticas. Ao encontrar pais e irmãos sociais, Macarena Aguiló depara com experiências e percepções distintas quanto ao projeto. Enquanto uma personagem se sente preterida ao perceber que os pais haviam constituído novas famílias, outra se mantém muito ligada a eles, apesar da ausência. A intimidade de Aguiló com o tema e seus personagens permite que seja feito um balanço tão plural quanto rigoroso da experiência do projeto Lares.

O filme pode ser assistido em streaming no site especializado em documentários Doc Alliance.

Agradecemos a Macarena Aguiló pela autorização para a publicação do trecho do filme.

*Bárbara Rangel é curadora assistente do Cinema do Instituto Moreira Salles.

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