Capa de A perda de si

De chato e louco, todos temos um pouco. De gênio, nem todos. A leitura de A perda de si – Cartas de Antonin Artaud reforça que os três adjetivos caem bem no ator e dramaturgo francês (1896-1948).

E ele era chato (buscando incansavelmente a atenção dos que elegia como interlocutores), louco e gênio simultaneamente. Antiburguês e, sobretudo, antiarte burguesa, não se dedicava a criar produtos estéticos para consumo. Sua vida era sua arte, amálgama que contribuiu para a deterioração das saúdes mental e física. As cartas, portanto, fazem parte da sua obra.

A seleção feita por Ana Kiffer é a mais ampla já lançada no Brasil: cobre os últimos 25 anos da existência de Artaud. Traduzidas por Kiffer e por Mariana Patrício Fernandes, as cartas integram a coleção Marginália, coordenada por Miguel Conde na editora Rocco.

Assim como Van Gogh, a quem conferiu a brilhante classificação “suicidado da sociedade”, Artaud se tornou muito mais aceito depois que morreu. Para a ensaísta norte-americana Susan Sontag, o teatro moderno pode ser dividido em antes e depois de Artaud.

Trata-se de uma afirmação bem discutível, mas é certo que várias rupturas que o teatro realizou na segunda metade do século XX – com as convenções adequadas ao bom gosto burguês – tinham sido ditas ou intuídas pelo artista francês. Estavam no fundamental livro O teatro e seu duplo, na formulação de um “teatro da crueldade”, nas suas intervenções no palco e na imprensa, nas suas cartas.

Após ter rompido com o surrealismo, com André Breton, ter sido rejeitado pela escritora Anaïs Nin e por tantas pessoas e instituições, ter sido internado tantas vezes, ele morreu terrivelmente frustrado pela censura à  sua peça radiofônica Para acabar com o julgamento de Deus. Na última carta do livro, “triste e desesperado”, disse à amiga Paule Thévenin que se dedicaria a “um teatro de sangue/ um teatro que a cada representação faça ganhar/ corporalmente / alguma coisa/ tanto para aquele que atua quanto para aquele que vem ver a atuação,/ aliás/ não se atua,/ se age”. Não deu tempo, morreu uma semana depois, mas fizera isso ao longo das décadas anteriores.

Percebe-se nessas palavras a influência de Artaud sobre José Celso Martinez Corrêa – que, não por acaso, encenou Para acabar com o julgamento de Deus com tudo o que se previra, inclusive um ator defecando em cena.

Sua influência aparece no trabalho de outros diretores e atores brasileiros, havendo entre eles quem tenha sabido do artista francês graças a Rubens Corrêa (1931-1996). Durante muitos anos, entre as décadas de 1980 e 1990, o ator apresentou o monólogo Artaud, marcante para todos os que o viram. E ele ainda organizou o livro Artaud, a nostalgia do mais ao lado de Marco Lucchesi, Milton Freire e da dra. Nise da Silveira.

Outro espetáculo importante, este nos anos 1990, foi Cartas de Rodez, dirigido por Ana Teixeira e com Stephane Brodt no papel de Artaud quando internado no asilo psiquiátrico da cidade de Rodez. As cartas estão em A perda de si e mostram um homem lúcido o suficiente para explicar por que é (mal)tratado como louco.

O mesmo médico Gaston Ferdière que autoriza Artaud a escrever, sabendo o quanto isso é relevante para sua saúde, é quem lhe prescreve um tratamento de eletrochoques que vai massacrá-lo.

Por que, sr. Ferdière, o senhor não me dá um pouco de crédito e admite em seu coração que há em minha vida qualquer coisa de milagroso e que explica minhas atitudes e minhas preocupações morais muito melhor que todas as classificações médicas dentro das quais podemos querer que elas se encaixem?, escreve ele.

Seu corpo e sua mente foram campos de batalha entre medicina e arte, entre ciência e espírito. Foram destruídos, mas deixaram histórias que continuam alimentando inteligências e sensibilidades. A perda de si renova a força de se conhecer Artaud.

Luiz Fernando Vianna é jornalista, autor de Meu menino vadio, dentre outros livros, e coordenador da Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles.